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Historial

110 - Morte de Judas

Ficha Técnica

 

Morte de Judas

Um espectáculo de Dinarte Branco, Luis Miguel Cintra e Cristina Reis

 

Tradução Regina Guimarães

Colaboração artística Leonor Salgueiro

Colaboração técnica (som) Joaquim Pinto e Nuno Leonel

Direcção técnica Jorge Esteves

Montagem João Paulo Araújo, Abel Fernando e Rui Seabra

Operação luz e som Rui Seabra e Abel Fernando

Assistentes de cenografia Linda Gomes Teixeira e Luís Miguel Santos

Conservação do Guarda-roupa Maria do Sameiro Vilela

Direcção de cena Manuel Romano

Assistente de produção Tânia Trigueiros

Secretária da Companhia Amália Barriga

 

Interpretação

Judas Dinarte Branco

Voz Luis Miguel Cintra

 

Lisboa: Teatro do Bairro Alto. 24/03 a 03/04/2011
8 representações

 

De 19 a 29/01/2012 (reposição)
10 representações

 

Estrutura financiada pelo Ministério da Cultura/Direcção Geral das Artes

Este Espectáculo

Volta e meia Claudel volta a passar-me pelas mãos ou pelos ouvidos. Já há muitos anos quando ainda não tinha 17 anos para poder ir ao teatro dos adultos ouvi falar ao meu pai e à minha mãe de um célebre L’Annonce Faite à Marie de Paul Claudel, espectáculo em francês, com Danièle Delorme, que veio a Lisboa e no grupo em que eu vivia (os católicos de esquerda), mais até do que na alta burguesia reaccionária, fez furor. Era gente burguesa, culta e inteligente, mas militante a sério, que ousou fazer política como prática cristã, a quem João XXIII mudou a vida e para quem o pensamento de Teilhard de Chardin foi fundamental. Gente fina, já se sabe, mas que defendia e amava o povo e, vejo-o agora, confundia ética, estética e fé. E tudo era política. Hoje acho que tinham razão. Não percebi nessa altura. Mas talvez que ainda bem.

Claudel era um autor confessadamente católico (e quanto! Interpretou uma por uma todas as imagens do Apocalipse, interpretou palavra a palavra o Cântico dos Cânticos, passou os últimos anos da vida a fazer a exegese da Bíblia), como o era outro autor português que para o meu pai foi fundamental, José Régio, e que uma tarde cheguei a conhecer, fascinado, levado por um dos dirigentes, católico, da crise universitária de 62, Vítor Wengorovius, muito amigo de nossa casa e menos burguês. L’Annonce, como a Benilde ou a Virgem Mãe de Régio, falava de mulheres grávidas sem homem, como aconteceu à Virgem Maria, de maneira nova. Tocavam no dogma. Falhei uma oportunidade única, como aliás e por razões ao que me parece paralelas, Manuela de Freitas, não aceitando participar no filme, nessa pequena maravilha que dessa peça fez Manoel de Oliveira. Não sei se fiz bem se fiz mal, nunca se conhecem os caminhos de Deus, (e por isso me custa arrepender-me seja do que for), digo às vezes que era porque estava escrito que havia de dirigir esta companhia de teatro durante toda a vida. Achei e ainda acho, no fundo, que nesse momento não devia abandonar a participação activa com o grupo em que me inseria, naquilo que queríamos que fosse uma Revolução. Mas se o não tivesse feito, pelo próprio trabalho do filme, teria sido obrigado, e teria sido bom, a não tanto mergulhar na questão da virgindade da mãe de Cristo, que me parece discussão estéril, mas a continuar a pensar na relação do Homem com Deus, a que a chamada “virgindade” de Maria, aliás, não é, evidentemente alheia, questão que para tantos dos católicos progressistas, também ficou adiada.

Seja como for, voltei a cruzar-me duas vezes com Régio pela mão de Oliveira, que era seu grande amigo e a quem ainda hoje oiço tantas palavras de profunda admiração pelo poeta: em “Mon Cas”, e no “V Império”, baseado no Dom Sebastião. Quanto a Claudel, quase às escondidas fui lendo na minha adolescência: Tête d’OrLe Pain DurLe Père HumiliéL’Otage. Mas também foi Oliveira quem me levou a Claudel, quando me chamou para interpretar o Rodrigue de Le Soulier de Satin, (mal eu sabia o que estava a fazer), esse filme lindíssimo de 7 horas que pouca gente ainda viu. Vi eu, e não esquecerei, Manuela de Freitas representar L’Échange/A Troca no convento dos Cardais. Acabei por encenar e ser o Frère Dominique de Jeanne d’ Arc au Bûcher no Teatro de S. Carlos há uns anos, em co-produção com a Cornucópia, e com Isabelle Huppert no papel central. E foi com a maior emoção que vi numa crónica sua, João Bénard da Costa, um dos tais católicos progressistas e um dos mais activos, que muito mais tarde veio a ser avô de um meu sobrinho, o Nuno, que levei à pia baptismal a seu pedido, dizer que Isabelle Huppert e Luis Miguel Cintra lhe tinham dado “a mais católica das Jeannes d’Arc genialmente servidos pela cenografia e figurinos inadjectiváveis de Cristina Reis.” É bom quando percebemos que a vida faz sentido.

Conto tudo isto para falar da maneira mais pessoal possível, deste pequeno espectáculo que tivemos vontade de fazer sem orçamento: Morte de Judas, que parece cair do céu (literalmente), citando este Judas claudeliano, mesmo que tenha ficado preso nos ramos da figueira, e que propus ao Dinarte interpretar. Se n’ A Cacatua Verde se fala pouco de Deus, nem por isso estamos longe do mesmo assunto. E é evidentemente o mesmo assunto que no espectáculo MISERERE quisemos tratar a partir do Auto da Alma, a necessidade de encontrar um sentido para a Vida e para a vida de cada um, e o muito ou pouco espaço para a liberdade humana que o catolicismo nos deixa, o respeito pela Vida na vida de cada um que qualquer sistema ideológico, seja o Catolicismo ou o Big Brother da sociedade Capitalista, oferece, e a responsabilidade política e metafísica do ser humano. Morte de Judas fala, mais simplesmente, da relação do Homem com Deus, ou não se tratasse outra vez, como no MISERERE, da Paixão de Cristo, Filho de Deus. E estreamos na Quaresma e ao mesmo tempo que o Papa publica o seu livro sobre a paixão de Cristo. Será por acaso?

Judas é tradicionalmente, o “mafarrico”, uma incarnação do Demónio. Porque Cristo é Deus e ele traiu-O, denunciou-O e desencadeou a sua condenação. Na representação do Auto da Paixão a que assisti em 1969 em Vilar de Perdizes vi o povo dar ao actor não profissional que o interpretava, uma surriada inesquecível, quase o linchava. Razões simples, odiamos quem faz mal a quem amamos. Mas, lembra-o Claudel, era mal entregar Cristo? Não o queria o próprio Cristo? Não aconteceu tudo para se cumprirem as Profecias? O povo, que quase linchava Judas em Vilar de Perdizes, não devia santificá-lo como anjo? Mais humano é acusá-lo de traição. São dúvidas demasiado teológicas para quem tem fé e não quer saber se tem razão. Alguma vez pôs Deus em causa? Ou quis definir se Deus lhe dava liberdade ou não? Deus não lhe aparece tão humano e natural que quando no Auto passava o actor/Cristo de cruz às costas, se ajoelhava, e chorava quando via a representação do momento da Morte? A obra de Claudel não é assim mas, tal como João Bénard apontava na sua crónica sobre Jeanne d’Arc au Bûcher em 28 de Março de 2003 (está agora a fazer anos), o assunto para que sempre e aí aponta Claudel é a ligação da terra ao céu, dos homens a Deus, é simbolicamente o poste a que Joana estava atada e o fio da corda em que Judas se enforcou e que o puxa no sentido da gravidade. Joana aponta para o Céu, fez morte, fez guerra, defendeu o poder de um rei em nome de Deus, Judas conseguiu que o Homem matasse Deus, como disseram os profetas que aconteceria, mas em nome do Homem e não para cumprir as Escrituras. Joana quando morre, rompe as correntes e a alma sobe para Deus. Judas quando morre, larga as entranhas para o chão, cai-lhe de dentro de si a imundície. Uma santa, outro pecador, mas é a mesma linha perpendicular, o assunto é o mesmo: afinal quem faz a História? O Homem ou Deus? E se é Deus, onde está o mistério da Incarnação que define o Cristianismo? Cristo, por ser Deus não fez História como e quando era Homem? E de que maneira! Ele e os outros Homens, fossem mártires como Ele, ou não. O mito, escrito pelos homens precisava de Judas como traidor e eles assim o contaram. Mas muitos outros contribuíram para a morte de Cristo, essencial ao sentido do Cristianismo. Deus precisava da História, com toda a sua complexidade, precisava da imperfeição humana, porque é ela que transforma a Vida em obra divina. Na Joana d’Arc ou no Judas, com sinais inversos talvez mas é da Humanidade que está a falar. E falando dela está a acreditar no nosso Deus. Aí é que eu creio que toca fundo a leitura da paixão feita por Claudel.

Diz Bénard nessa crónica a propósito da nossa Jeanne d’Arc: “Quem pode dizer que compreende Joana d'Arc? Mas quem pode dizer que compreende Deus? Nem a carne nem o sangue, nem a razão nem o siso, nos permitem compreensões dessas. A nossa pergunta perante ela é a mesma que Dominique lhe dirige no texto de Claudel: «Jeanne! Jeanne! Jeanne! Foi por um rei de carne que deste o teu sangue virginal?» Mas não será sempre – repensei-o agora – por reis e rainhas de carne, homens ou mulheres de carne, que damos o nosso sangue, virginal ou não? Foi o rei de França. Podia ser o rei de Inglaterra. Podia não ser rei. As ideias passam, só a história fica. Ou, como dizia Péguy, o único grande escândalo, o único grande mistério é a História, nossa criação temporal.” Mistério, digo eu, porque é obra dos Homens é a Vida da Humanidade, mas essa é a forma que os homens dão à obra de Deus.

Parece querer ser essa a visão do Papa Bento XVI (mas nunca é unívoco) quando no texto que dedica a Judas em 2006 diz que “Deus assume o gesto imperdoável de Judas”: “quando pensamos no papel negativo desempenhado por Judas, devemos considerá-la (a traição de Judas) de acordo com as formas sublimes nas quais Deus conduz eventos. A sua traição levou à morte de Jesus, que transformou este tremendo suplício em espaço de amor salvífico e em entrega de si ao Pai (cf. Gl 2, 20; Ef 5, 2, 25). A palavra "trair" é a versão de uma palavra grega que significa "entregar". Às vezes o sujeito é mesmo Deus em pessoa: foi ele que por amor "entregou" Jesus por todos nós (Rm 8, 32). Em seu misterioso desígnio salvífico, Deus assume o gesto imperdoável de Judas como ocasião da doação total do Filho para a redenção do mundo.”

Mas não só Judas de entre os homens contribuiu para a “entrega” de Cristo. Cada gesto de cada personagem contribui para a evolução dos acontecimentos. O gesto de Madalena na Betânia, de sentido oposto, é igualmente responsável. Mateus não hierarquiza as personagens. É a Humanidade que está representada nos Evangelhos. E por ela passa Deus, que a criou como todas as coisas visíveis e invisíveis. Mas este Judas de Claudel não é como o pintaram na Bíblia, este Judas não se arrependeu, enforcou-se, como tantos seres humanos, por vergonha, ferido na sua honra pelo desprezo dos fariseus. Por orgulho. Para ele, quem miseravelmente se arrepende é Pedro, o fundador da Igreja, fraco e humilde por oposição à força da sua coragem. Este Judas fala para além da Morte, já enforcado da figueira e orgulhoso da sua traição. Na Bíblia, como acontece nas Mitologias, as personagens falam na medida do papel que cumprem. Judas não tem quase voz nos Evangelhos, pouco dizia. Aqui estamos no teatro e ele fala pelos cotovelos. Claudel inventa um homem para Judas, um homem importantíssimo na economia da Paixão. Aquele que corajosamente a desencadeou, escandalizado por razões próprias do Homem, utilização indevida da riqueza. E rendemo-nos à evidência humana do que diz. Claudel chegou a dizer que Judas é o materialismo, dentro da obra de Deus, evidentemente. Para quem acreditar, ou pelo menos quiser ter esse Nome na boca, esse santo nome que não invocarás em vão.

Mas não é do materialismo oposto ao cristianismo que este texto fala. Dir-se-ia que este Judas não faz parte do mito, fala como um homem que vive sem transcendência, com o senso comum ou o materialismo do nosso tempo. É num ponto de vista totalmente humano, no mais inegável bom-senso e no mais lúcido realismo que se coloca o chamado “traidor”. Ele explica: “Sabia que estava a prestar ao Estado, à religião, a Ele próprio, um favor eminente, – porventura à custa dos meus interesses e da minha reputação, – impedindo-O de perturbar, – com as melhores intenções deste mundo! – os espíritos fracos, de semear no seio do povo a inquietação, o descontentamento com aquilo que existe e o gosto por aquilo que não existe”. E foi “escandalizado” que decidiu vender a sua denúncia, contra a insensatez de Madalena, que esbanjou dinheiro por gratuita generosidade, e “per belezza”.

Morte de Judas fala de fé. Quando parece resgatar o Judas símbolo com a invenção da sua humanidade, lembra com um pequeno monumento à lucidez, que a fé só é fé se não a soubermos explicar mas a pudermos escolher sem ser imposta por falsas evidências nem por demonstrações teológicas. Tem de ser livre ou não é fé. É verdade, mas também é mentira, porque à fé só se chega depois de pecar. A uma primeira leitura creio ver debaixo da crítica deste Judas aos milagres, da sua voz de homem, uma crítica à Igreja, coisa da terra e dos homens. Que corda é essa que Judas diz que lhe ataram à volta do pescoço mas que hoje se chama estola senão a Igreja? Mas Morte de Judas quer ser como uma carta do Tarot. Ambígua. Perpendicular nos dois sentidos. (O Enforcado pelo pé?) Ao lado da cruz, imagem simbólica que todos nós trazemos na cabeça, de uma História feita à luz da ideia de um Deus que se fez carne, num curto monólogo, Claudel mostra uma “carta” que não é a da cruz de Cristo, mas outro madeiro, a figueira, madeira viva, onde Judas, o Apóstolo para sempre associado ao Mal, à Traição e ao Demónio, depois de trair Cristo, se enforcou. Faz o exercício de lhe dar voz, de, em oposição aos textos sagrados, contar a Morte de Cristo pelo ponto de vista de quem desencadeou toda a Paixão. Ao contrário dos Evangelhos que mitificam a narrativa dos acontecimentos, Judas fala do lugar do Homem, fala enforcado, e resgata a sua condenação moral com um ponto de vista exemplarmente dialéctico em que demonstra como a sua traição serviu Deus. A figueira, árvore viva e de ramos em todas as direcções, torna-se no símbolo da crítica, da lucidez, do materialismo, do próprio “livre arbítrio”, do próprio Homem, e opõe-se para sempre à cruz, madeira já morta, indicadora do caminho da salvação.

E no entanto, quase no fim do período de ensaios, e porque o Dinarte enfrentava a tarefa de lhe dar existência real, percebi como é patético o orgulho com que este Judas pensa ter vencido. Depois que abandonou o corpo, vencendo, julga ele, o Tempo, pensa que é Deus e (como Fausto?) quer ser mais Deus que o próprio Deus ao vencê-lo, pensa que se tornou imortal ficando para sempre como exemplo. Esquece que é puro símbolo, imagem literária, porque o corpo morreu, e sem corpo deixou de ser Judas, deixou de ser homem. Afinal repete o erro de Adão, que por isso mesmo teve a morte por castigo. E deixou de ser Adão para passar a ser o Homem, obra imperfeita, mortal. Imortal só Deus ou, no fim dos tempos, a imperfeição que por ele se deixou abraçar. O que tornou Judas grande não foi a vaidade de pôr Deus em causa, foi a sua humanidade de pecador, o gesto da sua traição e a morte que a si próprio depois deu, foi aquilo que deu a Deus a oportunidade de salvar os homens todos com um sofrimento decidido pelos homens e de, assim, humanizando o seu sacrifício, o abraçar na sua imperfeição, e devolver à humanidade a condição de criação divina.

Este Judas de teatro, pura invenção teórica, felizmente, passou ao lado da fé. Não se conheceu. Não aceitou o mistério. E nunca verá Deus, por mais liberdade que conquiste e se queira afirmar como Eu. O Judas verdadeiro, esse terá a beleza da obra inacabada, terá sido um ser humano, debatendo-se dentro do seu corpo com a dúvida, ou com o orgulho do pecado original. Pela negativa, Claudel está a louvar o amor, o amor à Vida, e a dizer, como no fim da Jeanne d’Arc: “Ninguém tem maior amor que o de dar a sua vida por aqueles que ele ama.”

Mas este, ao contrário da Jeanne, é um pequeno espectáculo de 3 pessoas para o qual o Dinarte foi quem mais trabalhou, trabalhando essa fala do enforcado em diálogo comigo e com a cenografia sumária da Cristina. O resultado é um estranho e incómodo objecto, o monumento a que o Mal não costuma ter direito. Essa estátua, sim, ali fica para sempre e afirma, por outras palavras a frase popular: “Deus escreve direito por linhas tortas”. E que é o Homem quem trabalha para Deus desde que perdeu o paraíso. Claudel resgata Judas. O seu “Aspice Judas enforcado!” é a dentada de Adão na maçã. Homenagem ao Deus Autor. Uma estela funerária: Morte de Judas. E o nosso espectáculo mais uma versão do Ecce Homo.

Luis Miguel Cintra

Imagens

fotografias de Luís Santos ©