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Historial

89 - Esopaida

Ficha Técnica

 

Esopaida ou Vida de Esopo
de António José da Silva (O Judeu)

 

“Ópera que se representou no Teatro do Bairro Alto de Lisboa, no mês de Abril de 1734”

 

Encenação Luis Miguel Cintra

Assistente de encenação Manuel Romano

Cenário e figurinos Cristina Reis

Assistentes para o cenário e figurinos Linda Gomes Teixeira e Luís Miguel Santos

Desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção

Colaboração musical Vasco Pimentel

Director técnico Jorge Esteves

Construção e montagem de cenário João Paulo Araújo e Abel Fernando

Maquinista João Paulo Araújo ou Abel Fernando

Montagem e operação de luz Rui Seabra

Guarda-roupa Emília Lima

Costureiras Conceição Santos, Helena Moreira, Isabel Cirne e Maria do Sameiro Vilela

Contra-regra Manuel Romano

Cartaz Cristina Reis

Secretária da Companhia Amália Barriga

Interpretação (por ordem de entrada em cena)

Coro David Almeida

Zeno, filósofo, senhor de Esopo José Manuel Mendes

Esopo, filósofo Luis Miguel Cintra

Primeiro Escravo Manuel Romano

Segundo Escravo Duarte Guimarães

Mulheres na Feira Márcia Breia, Rita Durão e Sofia Marques

Tendeiro de espadas e Couveira David Almeida

Xanto, filósofo ateniense Luís Lima Barreto

Periandro, discípulo de Xanto, amante de Filena Ricardo Aibéo

Énio, discípulo de Xanto Dinis Gomes

Filena, filha de Xanto Rita Durão

Geringonça, criada de Eurípedes Sofia Marques

Eurípedes, mulher de Xanto Márcia Breia

Gente na Praia David Almeida, Duarte Guimarães, José Manuel Mendes e Manuel Romano

Messénio, governador de Atenas David Almeida

Soldado Manuel Romano

Cresso, rei de Lídia José Manuel Mendes

Temístocles, general Duarte Guimarães

Júpiter Manuel Romano

Burro David Almeida e Dinis Gomes ou Ricardo Aibéo

Soldados mascarados Dinis Gomes, Manuel Romano e Ricardo Aibéo

Estátuas Dinis Gomes, Luís Lima Barreto, Manuel Romano, Márcia Breia e Sofia Marques

 

Texto O texto adoptado no espectáculo foi estabelecido a partir da edição da peça: António José da Silva, Esopaida ou Vida de Esopo, edição sinóptica e interpretativa por José Oliveira Barata, por Ordem da Universidade de Coimbra, 1979.

 

Música Os momentos musicais do espectáculo foram resultado de um trabalho colectivo de improvisação pelo elenco com a colaboração de Vasco Pimentel.

Percussões: Dinis Gomes, Duarte Guimarães, José Manuel Mendes, Luis Miguel Cintra, Manuel Romano, Ricardo Aibéo, Rita Durão, Sofia Marques

Colaboração de Prof. José Oliveira Barata, Teatro Experimental de Cascais e Companhia de Teatro de Almada

 

Lisboa, Teatro do Bairro Alto11/11 a 19/12/2004

39 representações

 

Faro, Teatro Municipal25 a 27/11/2005

3 representações

Porto, Teatro Carlos Alberto13 a 22/01/2006

9 representações

Estrutura subsidiada pelo Ministério da Cultura/IA, Instituto das Artes

Este Espectáculo

Mais do que pela sua localização, demos à sala de espectáculos da Rua Tenente Raul Cascais de Lisboa onde em 1975 o Teatro da Cornucópia passou a trabalhar, o nome de Teatro do Bairro Alto em memória e honra desse outro Teatro do Bairro Alto que o terremoto de 1755 destruiu, a “casa do divertimento do Bairro Alto”, onde na primeira metade do século XVIII os bonifrates representaram as “óperas” do Judeu. No tempo da nossa juventude escolhemos o nome da criada de Alcmena no seu ANFITRIÃO para nome desta já velha companhia: Teatro da Cornucópia. Da encenação dessa peça com o Grupo de Teatro da Faculdade de Letras em 1969, desse entusiasmo, nasceu a ideia deste grupo de teatro “profissional”. No teatro do Judeu reconhecemos aquela sábia fusão de erudito e popular que formou o nosso gosto. O amor pelo teatro do Judeu vem das nossas origens. Tanto e tão bom que sempre é com receio que a ele voltamos. Não se vá qualquer coisa estragar.

Voltámos em 1982 com O LABIRINTO DE CRETA, espectáculo que carinhosa e longamente preparámos e que tão mal amado foi. Sujeitámos nessa altura o texto a alguma “tortura” dramatúrgica, é certo: perspectivávamos a obra com um processo de teatro dentro do teatro, recorrendo a textos posteriores de Correia Garção e Matias Aires. Interessava-nos nesse momento a própria reflexão sobre o teatro, e muito trabalhámos no enquadramento histórico da peça. Tentámos com a colaboração de um compositor, o Paulo Brandão, inventar um pastiche da música barroca que os actores souberam cantar mal, é certo. Mas, apesar de tudo, não seria coisa tão má, e foi espectáculo que caiu em saco roto e que nos marcou pelo profundo desencontro com o gosto do então pouco público. Ainda tínhamos saudades daquela cumplicidade com o público a que o curto tempo a seguir ao 25 de Abril nos tinha habituado. Pensávamos com um ciclo de comédias reflectir sobre isso. A conclusão a que chegámos foi a da evidência da maior solidão. Escolhemos mal?

No triste ano de 2004 em que estreámos a ESOPAIDA, precisámos de voltar. Não à solidão, esperemos. Aos velhos amores, à alegria que estas fátuas brincadeiras do Judeu nos dão. Vivemos tempos maus. À nossa volta, tudo negro: corrupções, manipulações, incompetências, injustiças, desilusões, desencanto, indiferença, egoísmo, barbárie. Nas “artes do espectáculo” é triste a perspectiva: nada marca, nada conta e tudo vale igual a zero, quase tudo verbo de encher, alguns a teimarem e o tempo a passar. Ou seja, tempo de humor. Ou desespero? Andam aí os brasileiros da tv e comédias a dar por um pau. Políticas, de boulevard, de salão, anedotas, sit-coms. E musicais. Fast-food. Talvez seja bom sinal. Deste pântano qualquer coisa há-de nascer. Se estivermos vivos. Pelo nosso lado festejamos à antiga, e mais devagar, com o teatro do Judeu. Talvez o fim dum mundo. Será talvez o fim de um nosso mundo.

Pegámos desta feita numa das suas primeiras peças, numa das mais “selvagens”, a Esopaida, para alguns de nós, mais velhos, carregada de boas memórias no primeiro espectáculo do Teatro Experimental de Cascais, há 40 anos. (Como eram divertidas as senhoras, a Filena da Zita Duarte, aGeringonça da Céu Guerra, a Eurípedes da Carmen Gonzalez!). Na edição do Prof. José Oliveira Barata, que recupera uma versão manuscrita pelo punho do amigo e editor do Judeu, Francisco Luís Ameno, encontrámos um texto menos ajuizado que o da primeira edição impressa, corrigida e sujeita a censura, e um texto por certo mais próximo do original representado pelos bonecos, mais brejeiro, mais coloquial, mais popular. Foi esse o texto que adoptámos, só aqui e ali recorrendo a enxertos vindos da edição impressa que nos pareceram de maior “funcionalidade” dramática (algumas árias por exemplo). Na ESOPAIDA encontramos o fantástico delírio verbal de todas as peças do Judeu, o teatro como triunfo da brincadeira gratuita, desencabrestada. Mas a própria estrutura da peça é mais imperfeita e afinal mais livre que a das peças posteriores. São cenas soltas, quase desorganizadas, dramatizações das cenas divertidas da vida de Esopo que seriam por demais conhecidas do público e que o Judeu adapta à maluca para a vida quotidiana do seu tempo. Foi disso que gostámos. Desta liberdade, deste humor desregrado, excessivo, truculento, rebelde, malcriado. Saudável. Sem cinismo. Afinal inocente. Em que o corpo trabalha a cultura, onde se brinca com a língua, onde triunfa a imaginação. Na figura de Esopo, que, ao que se conta, para bem do teatro e para seu mal, graças a Deus era escravo, ou seja um pobre diabo, pôde o Judeu encontrar matéria de sobra para inventar um “bobo chocarreiro” inteligente, manipulador de todas as situações e de todos os patetas, sempre pronto a levar a vida pelo lado da alegria. Com ele desenvolveu a tal ponto o papel do “gracioso” da comédia espanhola que o tornou protagonista, omnipresente. A intriga é dele, não a comenta. Ele é o principal. E tudo leva atrás em turbilhão. A um ponto tal que quase deixa de ser personagem. É o próprio espírito lúdico em cena. É o teatro como pura diversão. E, felizmente, alguma violência, mais domada em algumas das peças posteriores, pelo menos nas versões que nos chegaram.

Claro que a peça é antiga. Para nós, gente de hoje, desapareceu o referente. O humor da Esopaida é para nós mais abstracto que para o público do primeiro Teatro do Bairro Alto. Já não podemos reconhecer nestas brincadeiras as referências ao gosto dominante da época, às modas, aos ridículos da sociedade lisboeta, aos lugares comuns literários, à injustiça de então. E por certo lá estarão. Representar a ESOPAIDA hoje é, apesar de tudo, e tudo é a graça, representar um clássico. Não estamos na Lisboa que se esconde nesta Atenas deste Esopo. Não conhecemos como o público de então as cenas da vida do escravo poeta (quantos saberão quem é Esopo?), nem as comédias do século de ouro, nem as novidades das óperas daquele tempo. E não falamos já este português (o que, diga-se de passagem, não facilita as coisas e dá algum trabalho ao actor). Mas até por isso mesmo nos dá gosto representar agora este texto. A vontade de alegria nasce com certeza para nós do desgosto do nosso tempo, mas este humor não se alimenta do mundo de susto em que vivemos. Não vive desta nossa grosseria. Vive longe por breves instantes. E pede outra coisa. Uma outra liberdade. Como afinal sempre acontece com o nosso gosto pelos clássicos, levamos para cena o conhecimento ou o desejo de outro mundo, de outra forma de viver, de pensar, de sentir, de brincar, que o nosso triste dia a dia não conhece ou já esqueceu. E a isso nos ajuda uma memória, a memória de outro teatro.

Foi com a memória de outros teatros mais antigos que construímos esta brincadeira. Procurámos no jogo dos actores a memória dos lugares comuns da farsa, das comédias de Aristófanes, dos eternos gags, dos teatros de bonecos, das festas de carnaval. Fartos de imitações da vida e do gesto “natural” e verosímil, procurámos caricaturas. Deformámos os corpos como já o fizéramos no ANFITRIÃO. Vale tudo, venha o pobre e velho “mau gosto” contra o “fino gosto” de agora, bem pensante e novo rico. Com pouco “discurso”, se faz favor. E alguma poesia.

Também o cenário é feito dessas memórias, de brincadeiras com os antigos, de saudades de um teatro artesanal. Com engenho e pintura. Longe do vídeo e de outras interdisciplinaridades. Imaginámos (um sonho?) que algum palco esquecido com bastidores engradados, telões pintados suspensos do tecto, restos de adereços de outras peças, se animava de repente com uma “fantochada”. Que os actores bonecos saíam da memória. Por trás de cordas que roubámos à boca de cena de grades, para confundir nos olhos os arames, dos bonecos de Santo Aleixo, paradigma do mais puro dos teatros. Que voltava a alegria. Que o próprio palco brincava com as perspectivas e ilusões pedidas pela peça do Judeu: a praça de armas, o jardim das estátuas, o pátio da estrebaria e a noite dos enganos, a praia, o templo de Júpiter, a sala de espelhos, o terremoto, Esopo e a águia a voar. Que brincava com esta Atenas de fancaria, que vinham as colunas, as gregas, túnicas e mantos de velhos panos crus, de mistura com cavalos de brinquedo, espadas de madeira, garrafas de tintol, penteados e sapatinhos recentes e passadeiras de plástico. Viva o anacronismo! O que conta é o movimento. Viva “a alma no corpo de cortiça”.

Para a música que estas “óperas” pedem, resolvemos brincar sem pretensões. Fomos buscar quantos bombos, tarolas, ferrinhos e pandeiretas, cornetas e campainhas havia pela casa, agarrámo-nos aos ritmos (quantas vezes tortos) dos versos das coplas e árias, e deixámos que nos viessem à cabeça memórias disparates de músicas de qualquer tempo. Graças aos dotes musicais inatos de qualquer ser humano e à vocação percussionista sobretudo de dois ou três actores, a ajuda de todos e de um senhor amigo, lá ficou uma charanga que nos diverte para burro. “E quem quiser mais, vá a sua casa.”

Não é este teatro com certeza um teatro realista. Foge do mundo, é verdade. Mas também o mundo que quer saber de nós? Aceite o nosso auditório que a nossa “missão” um dia perca a cabeça, que lhe fugiu para o ar, como às vezes acontece nos teatros de bonecos e como acontecia à cabeça da Vanina de O Colar. Mas, acreditem, é o nosso mundo que nos leva a isto. Com um apego à vida verdadeira que nenhum desgosto ou desespero há-de afogar. “Também a gente não há-de brincar?”, como diz o Esopo ao patrão. E gostávamos de não estar sós.

 

Luis Miguel Cintra

Imagens

fotografias de Luís Santos ©