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Historial

45 - Mauser

Ficha Técnica

 

Mauser
de Heiner Müller

 

HÉRCULES 2 ou A HIDRA, extracto da peça CIMENTO (HÉRCULES 2), e NOCTURNO, extracto da peça GERMÂNIA MORTE EM BERLIM (NOCTURNO).

 

Tradução Anabela Mendes

Encenação Luis Miguel Cintra

Colaboração para a dramaturgia Eduarda Dionísio

Cenário e figurinos Cristina Reis

Assistente de cenografia Linda Gomes Teixeira

Montagem Fernando Correia

Guarda-roupa Emília Lima

Costureiras Ofélia Lima e Teresa Cavaca

Adereços Cristina Reis e Linda Gomes Teixeira

Iluminação Luis Miguel Cintra e Ricardo Madeira

Operação de luz e som Ricardo Madeira

Contra-regra Alfredo Martinho

Interpretação

HÉRCULES 2 Márcia Breia 

MAUSER Luís Lima Barreto, José Manuel Mendes, Luis Miguel Cintra, Luís Lucas, Gilberto Gonçalves, António Fonseca e Ângelo Torres

NOCTURNO Márcia Breia 

 

Lisboa: Teatro do Bairro Alto. Estreia: 24/04/1992

40 representações

Companhia subsidiada pela Secretaria de Estado da Cultura

Apoio de Anabela Mendes, Carlos Guimarães e Francisco Pereira

Este Espectáculo

Fazemos a MAUSER e fizemos A MISSÃO porque são peças didácticas. Reivindicamos ainda para o teatro um espaço de aprendizagem e ensinamento, um terreno onde, através do espectáculo, o debate pode ser possível ou pode ainda dar-se em exemplo. Continuamos a reivindicar para o teatro o único grande tema, o próprio homem, a sua luta pelo seu próprio nascimento. MAUSER e A MISSÃO falam de revolução. O nosso teatro ainda quer falar disso. Como continua a querer falar de si próprio, a querer reflectir sobre a sua função e as suas armas.

A nossa segunda encenação de A MISSÃO e a nossa MAUSER foram pensadas como um díptico que falasse de revolução, da memória da História e pusesse em debate a peça didáctica. Tanto num caso como noutro o trabalho não foi o da criação de uma ficção. A noção de personagem foi outra. A noção de conflito não estava aí. Num caso e noutro o trabalho esteve voltado para fora do palco, para o mundo longe do teatro, como sempre, e para o momento da própria representação, para o confronto de actores com uma plateia. A reflexão centrou-se também na própria função do teatro. A questão é o nosso tempo e a questão é a da criação de um teatro do nosso tempo. Quer o estrado no espaço aberto de A MISSÃO, quer o pequeno palco à italiana que ocupou o seu lugar na MAUSER, incrustado na grande parede que tapa o palco vazio, é a essa questão que se referem e foram concebidos como contraponto mútuo, ou variantes de uma mesma ideia. E a distãncia a que o público se colocará é a mesma.

Empurrados pela traição mundial à missão revolucionária provocatoriamente nos confrontamos e confrontamos o público com evocações de situações revolucionárias do passado, com o seu debate. De A MISSÃO quisemos fazer um espectáculo sobre a memória da História num tempo cada vez mais sem memória.

Mas A MISSÃO e MAUSER não são a mesma peça.

A MISSÃO pressupõe já na sua escrita um público de memória perdida, uma sociedade da traição. Por isso se podia dizer de A MISSÃO que era um panfleto, uma arma apontada ao espectador. MAUSER não é uma peça para o público. MAUSER é, quer explicitamente ser, a nova peça didáctica, o texto de um espectáculo sem público, todos actores, ninguém a ensinar, todos participantes numa função militante de reflexão, porque "a ignorância pode matar". MAUSER não tem divisão de personagens, MAUSER não tem uma história. MAUSER é um poema dramático para ser dito por um coro de personagens anónimas comungando de uma mesmâ fé, é talvez uma celebração. MAUSER não são recordações de uma revolução, como A MISSÃO. Em MAUSER pressupõe-se a revolução bolchevique como uma memória que se vive e se continua a ocupar, a que se continua a dar o sangue. MAUSER não precisa de provocar com imagens a imaginação do espectador. MAUSER não prevê a espingarda em cena, nem sequer o corpo do protagonista da sua história, porque não é dessa história que se trata. MAUSER não precisa de dar o sangue a ver. MAUSER trabalha com a linguagem abstracta da teoria a luta do corpo com imagens e palavras já sabidas. MAUSER faz sangrar feridas. MAUSER é um texto à partida impossível para o público português deste momento. Exige uma experiência ou uma fé que o público não tem, que nós não temos. A nossa MAUSER é uma falsa peça didáctica. Falha a intenção primeira da sua escrita.

Reconhecemos na MAUSER as formas da tragédia. Uma tragédia diferente, em que coro e herói se confundem, em que se subverteu a ideia de destino. Mas a nossa MAUSER não pode ser uma tragédia. Quantos espectadores reconhecerão os valores a que MAUSER se refere?

A nossa MAUSER quis jogar com esta distância. O que encenamos, creio, é a representação da própria impossibilidade de comunicação, de comunhão. É a presença incómoda de um corpo morto de que não nos podemos desembaraçar. Presença tanto mais incómoda quanto as presenças vossas, nossas, são, no entanto, as de seres vivos não sei se absurdamente presentes. É um espectáculo aberrante. A nossa encenação é um espectáculo construído sobre a exibição de falsidades, esvaziamentos de conteúdo, construído em falsa perspectiva, em "trompe I'oeil": a falsa representação de uma representação de MAUSER como peça didáctica, que é já a representação de um pequeno quadro em louvor da revolução (a "Reunião de uma Célula de Aldeia" de Elfim Tcheptosov -1924), que por sua vez representa uma falsa reunião de partido no antigo cenário de teatro de um palco de pequena sociedade de recreio, reunião essa já aí transformada numa sessão do mais puro e límpido esclarecimento para um público inexistente. Que luz é a transparente luz desse quadro? Que cores as dessas paredes? Para onde olham as figuras? Mas o nosso espectáculo é a construção de um quadro vivo com gente verdadeira. Não é uma reconstituição histórica num museu. Não são figuras de cera. É gente com nome a representar gente anónima. É a represenração da presença na nossa consciência do corpo morto do revolucionário desconhecido ou de todos os revolucionários do mundo. Com um grau de ingenuidade ou uma fragilidade absolutamente construídos, talvez falsas também. O nosso espectáculo é talvez urna câmara ardente. Pode ser que seja, e ainda bem, apenas um espectáculo in memoriam, uma homenagem. Ou uma imagem da utopia. A nossa MAUSER está longe da revolução. A sua representação quis ser a dor dessa distância, que queríamos que fosse a forma actual do nosso combate com a hidra.

O texto HÉRCULES 2 que fizemos preceder a MAUSER reconstrói com a ajuda da mitologia antiga uma nova mitologia da dor a que o nosso tempo talvez possa não escapar. Constrói para um público que não tem as imagens que MAUSER pressupõe uma nova imagem da "luta que não terá fim na cidade de Witebsk como noutras cidades" a que a MAUSER se refere, a mitologia do homem sem nome. Em NOCTURNO, com que concluímos o espectáculo, e como no espectáculo que construímos, o próprio teatro se torna mais uma vez em metáfora do mundo. O homem é o homem actual. O homem é agora o homem de Beckett, "o homem que talvez seja um títere". Mas é da luta do talvez títere com o desconhecido e (ou) consigo próprio, da sua dor, do seu grito que se gera o próprio corpo, a sua boca. É esta gestação que, mais do que o teatro, nos interessa.

Por mais impossível que seja, MAUSER não deixará nunca de ser um objecto violentamente poético na sua capacidade de invocar a presença em cena da dor de que falamos, a dor de um processo de construção do homem que só terá fim com a vitória da revolução, a dor de uma aprendizagem. Foi um objecto poético que quisemos construir.

Não podemos dizer com o coro de MAUSER "tu sabes o que nós sabemos nós sabemos o que tu sabes", é falsa esta representação, mas MAUSER pode voltar a ser uma peça didáctica se, perante a presença dessa dor ainda alguém quiser gritar. Como diz Müller: "uma educação dos sentimentos". Se o anjo do desespero quiser descer à terra. É essa a nossa esperança. Fizemos MAUSER para invocar a traição. "Para que a revolução triunfe e acabe o matar". Em nome da alegria? A minha pergunta não ajuda a revolução.

 

Luis Miguel Cintra

Imagens

fotografias de Paulo Cintra e Laura Castro Caldas ©