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Historial

99 - Don Carlos, Infante de Espanha

Ficha Técnica

 

Don Carlos, Infante de Espanha

de Friedrich Schiller

 

Recriação poética de Frederico Lourenço

Encenação Luis Miguel Cintra

Colaboração Carlos Aladro

Assistente de encenação Manuel Romano

Cenário e figurinos Cristina Reis

Assistentes para o cenário e figurinos Linda Gomes Teixeira e Luís Miguel Santos

Desenho de luz Daniel Worm D’Assumpção

Director Técnico Jorge Esteves

Construção e montagem de cenário João Paulo Araújo e Abel Fernando com Jorge Magalhães

Montagem e operação de luz e som Rui Seabra

Guarda-roupa Emília Lima

Costureiras Maria Barradas, Maria do Sameiro Vilela e Teresa Balbi

Conservação do guarda-roupa Maria do Sameiro Vilela

Contra-regra Manuel Romano

Cartaz Cristina Reis

Secretária da Companhia Amália Barriga

Interpretação

Duarte Guimarães, José Manuel Mendes, Luís Lucas, Luís Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, Márcia Breia, Nuno Casanovas, Nuno Lopes, Rita Durão, Rita Loureiro, Sofia Marques e Vítor de Andrade

 

Lisboa: Teatro do Bairro Alto. 10/04 a 18/05/2008

33 representações

 

Estrutura financiada pelo Ministério da Cultura/Direcção Geral das Artes

Este Espectáculo

Ao mesmo tempo que, em França, Beaumarchais escrevia O Casamento de Fígaro, na Alemanha Schiller escrevia o seu juvenil Don Carlos. Diferentes como a luz das trevas, mas é a mesma paixão, uma vontade de mudança. Um mesmo desejo de um futuro diferente para os homens: a alegria.

 

Já passaram quase dez anos quando, celebrando vinte cinco anos de trabalho da Companhia, e dando corpo a um desejo muito antigo, nos entregámos à alegria de pôr no palco o Fígaro. Fizemos a festa da “louca jornada”. Em modos diferentes, mergulhados agora na melancolia de mais alguns anos e maior ponderação, quase o mesmo grupo veste-se de negro para representar oDon Carlos. A Susana do Fígaro é agora Isabel de Valois e o Querubim passou a Don Carlos de Espanha. A Condessa é agora a Princesa de Éboli. E reconhecerão Bártolo e Basílio, a Marcelina, o juiz Bridalento, e dois pastores que passaram agora a Marquês de Posa e a Marquesa de Mondécar. O Rei, no Fígaro, tinha ficado de fora a organizar a festa com a companheira de sempre: Cristina. E a luz já era do Daniel. É afinal o mesmo grupo, é ainda a mesma cumplicidade, a mesma amizade e a mesma teimosia. A mesma ideia de teatro, a ideia de Schiller: um teatro como “instituição moral”. E nos dois casos, o lugar de acção é a Espanha que a gente daquele tempo sonhava para o lugar das suas ficções. Só que à luminosa Sevilha de Beaumarchais, contrapomos agora a Espanha escura de Filipe II recriada por Schiller. A Revolução foi em França. Os intelectuais alemães eram mais tristes.

 

Foi a esta melancolia da passagem dos anos que Frederico Lourenço, depois de trabalhar para o nosso Filoctetes de Sófocles, decidiu propor uma sua “recriação poética” do Don Carlos, escrita por uma rapaz de 28 anos. Nova tragédia, mais recente. E por mais triste que ela seja, a peça, de facto, assenta-nos bem. Muitas vezes temos dito que a nossa função no teatro é ainda política e que o espaço político que nos resta é o do confronto da céptica e cínica maneira de viver deste princípio do século XXI com a generosidade de outros tempos, com outras maneiras de inventar o Homem que pomos em cena. E Schiller é disso que fala: a invenção de uma nova humanidade. A sua Espanha negra é a metáfora de uma sociedade onde a liberdade não existe, onde é proibida aos homens a sua humanidade. Não é, como em Beaumarchais, pelo exercício da própria alegria que Schiller a desenha. É com um quadro “histórico” exemplar ou metafórico, em que são sacrificadas algumas figuras virtuosas que por ela lutam. Mas com este espectáculo, com o Don Carlos que Frederico Lourenço “recriou” para nós, o que fazemos, mais uma vez, é propor ao público um confronto com valores humanos que esqueceu. E como a luta continua mas parece mais longa do que a vida de cada um, porque a História tem avanços e recuos, alguma melancolia se instalou.

 

É difícil para um actor dos dias de hoje “interiorizar” e dar vida a um texto como este. Em vão se procurará encontrar nos dados históricos e biográficos das personagens históricas que a peça põe em cena, Isabel de Valois, o príncipe Carlos, o Duque de Alba, a Éboli, Filipe II, alguma pista de interpretação. Como não será uma cópia do vestuário e da arquitectura da segunda metade do século XVI que solucionará a cenografia e o guarda-roupa. Schiller falava mais do seu tempo que de uma época histórica e talvez até de um tempo futuro, através da criação daquele mundo de teatro. Parece, aliás, que só depois de escrever a peça se interessou verdadeiramente pela História que deu em espectáculo. Schiller não queria um teatro documental nem “mimético” ou ilustrativo. Escreveu poesia. A sua peça é um poema dramático. O que inventa é metafórico. E profundamente ético. Desenhou personagens que nunca existiram, são ideias, são formas do pensamento. Naquele tempo a psicologia ainda não era científica e o teatro que ele queria não era realista. O Don Carlos é o debate da “virtude”, da responsabilidade pública. Estes Carlos, Isabel, Posa, Filipe, são personagens que se têm de inventar, nunca na vida existiram personagens assim. Toda a corte espanhola que aqui se põe em cena com uma dúzia de figuras, este palácio, é uma construção poética artificial para desenhar um pensamento. Mais uma vez o que este teatro pede é a invenção de uma generosidade que desejamos ainda mas que não conhecemos. Mais cínica, preguiçosa e cómoda se tornou a época em que vivemos e o seu teatro. Estamos mais preparados, na nossa maneira de representar, para imitar a realidade, para um realismo que quase nunca é uma análise da própria realidade, antes é, quase sempre, uma operação para, através dos mecanismos de reconhecimento, nos assegurar numa visão desencantada da vida. E no êxito. E nem falamos da mera “decoração”. De espectáculos que são como os quadros para encher as paredes das nossas casinhas. Estamos agora habituados a uma arte de representar que repete clichés de comportamento quotidiano ou ilustra psicologia de health clube. Ou, em casos mais perversos, se compraz em destapar a careca a qualquer personagem positiva reduzindo-a a pequenas intenções e actos falhados. Este teatro tem outra grandeza e inventa almas. Sem mesquinhez. Almas grandes como nunca vimos mas queríamos ser. Fala-se do bem e do mal. Nós já só conhecemos a indiferença mascarada de tolerância. Há personagens aqui que se sacrificam porque é seu dever. Ou porque querem ser grandes. Nem que seja pelo mal, como acontece com a Éboli. E quem daria a vida pela liberdade dos outros? Sabemos o que isto é? Ou, se for antes o caso, quem gastaria a vida no trabalho de se construir a si próprio no exercício de uma nova nobreza de coração?

 

Foi nossa difícil tarefa construir este mundo. O palácio desta Madrid ou os jardins de Aranjuez acabaram por se desenhar como uma sala abstracta de poder. Ou uma sala de ensaios transformada pelo nosso inconsciente. Negra em tantos tons que o negro tem. Uma câmara escura para luz e sombra onde talvez se imagine o fogo das paixões ou dos desejos. Do percurso que fizemos para passar do nosso tempo a este mundo poético, para dar conta disso e da distância que foi preciso percorrer, ainda restou um ou outro sintoma no primeiro acto através de anacronismos como a luz das fluorescentes, mais triste do que qualquer noite, ou peças de guarda-roupa improvisado, pessoal, sinais de uma busca de que quisemos deixar traço. Deixámos, no arranque do espectáculo, alguma figuração do próprio actor em busca deste universo, o nosso longo percurso paralelo ao breve esforço com que a sensibilidade de um espectador se pode rapidamente despedir do mundo que deixou na rua e se dispõe a entrar noutro tempo. Mas das mil tentativas que fizemos para tornar concretas estas conversas e situações quase nada ficou. Não era essa a linguagem deste teatro. Este é um teatro abstracto, filosófico, literário, como já não conhecemos e tendemos a condenar porque não entretém. Dói. E dói mais porque nele não reconhecemos as revoluções, os movimentos de massas, que já catalogámos como via para as transformações do mundo. Aqui a construção do futuro é primeiro o trabalho das consciências individuais fortalecendo-se ou debatendo-se em fraternidades verdadeiras com outros indivíduos, com outros homens verdadeiramente humanos. Não se trata de tomar o poder. Trata-se de viver em liberdade. Do desejo vital de um mundo de “amor”, um mundo “novo”, “belo”, aquele que o Rei Filipe passou também a desejar quando amou pela primeira vez e assim se humanizou. Mas tudo passa pela construção da “alma”. Fala-se, através destas figuras, da contradição entre as formas que o Estado assume e a verdadeira liberdade. Mas sentimos que a Schiller lhe interessa cada ser humano, uma dignidade individual. A figura do Rei, incapaz de entender a contradição em que se move, torna-se patética porque não é senhor de si e é senhor do mundo inteiro. E não escolhe ou não pode escolher o caminho do seu desejo. Ora questões destas, que definem cada personagem, não se constroem com critérios psicológicos nem com a experiência de vida que temos, através do reconhecimento de comportamentos típicos e normalizados. Não há modelo para estas personagens. São únicos. Como acontece na tragédia antiga, a que Schiller se refere como a poesia que nos novos tempos terá de encontrar formas novas. A grande dificuldade e o grande desafio de, nos dias de hoje, representar este texto é essa. Mas é uma experiência de vida.

 

Por mais lúcido que seja este debate, ele faz-se pela paixão, pela entrega sem defesas que não é do nosso tempo mas nos orgulhamos de defender no nosso trabalho, e por critérios poéticos, musicais. A Espanha de Schiller é um pretexto para um debate filosófico que aqui se transforma em poesia das almas. Tivemos a intuição de que cada cena funcionava como uma “peça” em si, com uma cor própria, e de que, fosse virtude de Schiller ou da “dramaturgia” de Lourenço, o Don Carlos não era construído para o desenvolvimento de uma intriga, aliás reduzida e muitas vezes confusa. As diferentes cenas são variantes dos comportamentos, ou ornatos de um tema que a pouco e pouco se vai revelando. Materiais normais do trabalho de representar como o local da acção, a passagem de um sítio a outro e a outra hora do dia, são pouco úteis a não ser para dar origem a um novo andamento. Mas tudo se cola e progride por um mesmo tom. O que une as cenas é um discurso subterrâneo, talvez uma melancolia de ainda estarmos longe daquele mundo de que fala Posa e que só existe no porvir, um sentimento para que talvez não se deva encontrar nome. Essa música foi para nós o violoncelo de Rostropovich tocando a primeira suite de Britten que vos vamos dando a ouvir na íntegra, pontuando falas e cenas ao longo do espectáculo e prolongando-o para além do que seria razoável.

 

Mas é de alegria que Schiller fala quando nos põe a inventar estes frágeis seres de tragédia, este mundo de profundas trevas. Como se canta em introdução ao poema de Schiller que Beethoven integrou na sua 9ª sinfonia e que os nossos dias têm profanado:

 

O Freunde, nicht diese Töne!

Sondern laßt uns angenehmere

anstimmen und freudenvollere.

Freude! Freude!

 

Luis Miguel Cintra

Imagens

fotografias de Paulo Cintra ©


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