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Historial

15 - Paragens Mais Remotas Que Estas Terras

Ficha Técnica

 

PARAGENS MAIS REMOTAS QUE ESTAS TERRAS
Cenas das comédias de Plauto

 

Montagem dos textos Luis Miguel Cintra

Tradução Manuel João Gomes 

Encenação Luis Miguel Cintra

Assistência de encenação Márcia Breia e Raquel Maria

Cenografia e figurinos Cristina Reis 

Assistência de cenografia José Pedro Gomes e Linda Gomes

Música Paulo Brandão

Assistência musical para as canções Vasco Pimentel 

Montagem sonora Luís Martins

Luzes Luis Miguel Cintra e Mário Tojal 

Montagem Fernando Correia

Assistência de montagem Mário Correia

Mestra de guarda-roupa Emília Lima  

Costureira Leonor Conceição Silva

Direcção de cena Márcia Breia e Raquel Maria

Interpretação

Alda Rodrigues, Amílcar Botica, José Pedro Gomes, Luís Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, Márcia Breia, Raquel Maria, Rogério Vieira, Ruy Furtado e Jorge Barradas (violoncelista).

 

Lisboa: Teatro do Bairro Alto. Estreia: 10/10/79

54 representações

Companhia subsidiada pela Secretaria de Estado da Cultura

Este Espectáculo

Partimos para este espectáculo talvez demasiado inadvertidamente. Havia a ideia de tratar a comédia e o cómico popular como dois temas que se desafiassem um ao outro ou até de certa maneira se opusessem. Havia a ideia de que se o cómico podia ser a insurreição (e com Valentin, era-o concerteza), a comédia sempre fora o momento da reconciliação social e do bem-estar. E havia a dúvida disto resultante sobre se a comédia ainda seria de facto possível, e sem um mínimo de remorso, para quem acima de tudo anda mal com o presente e não está concerteza conciliado com o nosso dia a dia. Mas há prazeres de que nunca duvidaremos e andam para esses lados obcessões de um dia trabalhar textos como As Bodas de Fígaro, Muito Barulho por Nada ou A Mulher do Campo. A este desafio começámos a responder pegando nos textos de Plauto, dizendo que para aprender a ler se aprende primeiro o abc.

Havia depois a vontade mais simples de construir um espectáculo que pudesse ser um trabalho para um determinado grupo de pessoas – o núcleo de 8 actores fixos da companhia que os jogasse no que de melhor pudessem. E as personagens arquétipos da Comédia Nova bem permitiam.

Começámos por traduzir os Irmãos Menaechmi, distribuímos papéis e tentámos começar a levantar os jogos de sentido desses jogos de identidade da história dos gémeos confundidos, aprendendo a reconhecer a “forma” da intriga da comédia ou dos personagens (do velho, do parasita, do apaixonado, da meretriz ou da matrona). Pensávamos então que da irrupção da Roma de Plauto nas traduções de Menandro surgiriam contradições. E que, a partir de outros mal-estar como guarda-roupa contemporâneo em personagens romanos, se poderiam criar outros pontos de fractura ou contradição e que se iria assim desencantando a estrutura de restauração social e que tocaríamos em temas como o realismo e a convenção teatral e chegaríamos às questões brechtianas. Pensámos ainda que, existindo sempre como ponto comum nas intrigas das várias peças de Plauto e em toda a comédia clássica a permanência dos mesmos personagens arquetípicos, poderíamos multiplicar as situações de uma intriga base (os Menaechmi?) num infindável espectáculo de absurdos enganos.

Só que começámos a ler todo o Plauto e não foi o abc da história da comédia o que lá fomos encontrar mas sim e já toda a história da comédia e com um tal peso de primitiva brutalidade que o que nos apeteceu fazer não foi já uma comédia (a primeira de uma série que havemos de continuar) mas sim um espectáculo que tocasse em toda a história da comédia e que se interrogasse sobre a reconciliação, as reconciliações, essa tal restauração social que toda a comédia festeja.

Um espectáculo sobre a comédia que começasse por destruir as intrigas das várias diferentes comédias a que fosse buscar textos, que destruísse a sua organização temporal, fechada, um espectáculo que, pela acumulação e subversão dos momentos típicos da comédia lhes subvertesse a função e os revelasse até ao osso. Um espectáculo sobre a comédia que incessantemente repetisse que “la commedia e finita” mas que, no entanto, da comédia guardasse ainda duas heranças preciosas o prazer do jogo e o prazer dos mitos como formas de esconjuro.

Foi assim que começámos a juntar cenas (parecidas, paralelas, opostas), muitas comédias, e ao jogo da troca de identidade da comédia de gémeos (com que tínhamos começado ao pegar nos Menaechmi), substituímos, o prazer de fazer perder a identidade aos personagens, confundindo-os na identidade dos actores e dos fatos e aventurando-nos a introduzir por esse lado na comédia o que talvez seja o seu “fim”, a sua “perdição” – a noção de sujeito, a ideia de ponto de vista. Metemos o pensamento moderno pela comédia dentro.

Juntámos dezasseis comédias numa espécie de estrutura em estafeta (em que o testemunho ora é um ponto de vista da personagem, ora o assunto de que se fala, ora a metáfora que se utiliza), abrindo assim a estrutura da comédia, tornando-a numa espiral que acabasse por deixar sempre em aberto, sempre perturbada, irreconciliada, essa idade do ouro de que constantemente se fala, que a cada instante se deseja. Pensámos que assim essa idade do ouro se definiria até à evidência, e que surgiria por certo como depositária de mitos que importava entender. E os diferentes momentos da comédia passariam assim a diferentes modos ou graus do jogo ou da descoberta. E seria que conseguiríamos mesmo (parafraseando-nos a nós próprios) fazer um teatro que, tal como a tragédia dá conta da aniquilação ou a comédia da restauração, desse agora conta da dúvida ou da inquietação?

Quebrando, com a quebra da intriga, o padrão da relação causa-efeito aristotélica de que Northrop Frye fala (...), quebrando a causa formal das comédias e tentando de certo modo reencontrar o padrão mais profundo (romântico?) que Shakespeare terá procurado ao ler Plauto ou Terêncio, tentando por um lado redescobrir o ritual de imagens como a do mar, ou a da tempestade, por outro revelar o valor mágico de certas ideias como a caixinha dos brinquedos ou o cântaro de Vénus, tentámos que o jogo da comédia fosse outro. Tentámos que o jogo da comédia fosse a descoberta das suas peças ou o desenho do seu tabuleiro. Peças essas que seriam afinal coisas como a família, a ordem, o dinheiro, a propriedade privada, a autoridade, o bem e o mal, desenhados com a clareza de Picasso. E onde reconhecemos os nossos dias, a nossa sociedade, os estados em que vivemos, evidentemente.

Talvez demasiada ambição. Porque quem quiser fazer um espectáculo sobre a história da comédia se calhar está mesmo a falar sobre a história da humanidade, o que é por demais complicado. E ao subjectivar toda a comédia, ao transformar os personagens nos seus próprios autores, ao transformar em fantasmas as tais peças do xadrez, ao construir com estas dezasseis comédias afinal uma espécie de sonho do Senhor Tchao (lembrando-nos sempre de AH Q), maior ambição ainda, a de percorrer o caminho inverso, o de des-sacralizar, com o peso da história da humanidade (ou será que é apenas o de uma mascarada romana?), eternos pavores como o temor a Deus, aos pais e ao dinheiro as questões do poder.

Dizíamos nos textos de apoio de E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LO?:

“Da estrutura da “comédia” – e é fundamentalmente a mesma de Menandro até ao Boulevard – podíamos dizer o que Simone de Beauvoir diz da “Festa” (na Force de l'Âge): é “antes de tudo o mais uma ardente apoteose, do presente perante a inquietação do futuro”. Simplificando-a, pudemos descrevê-la assim:

1º momento: existiu em tempos uma ordem (normalmente, na comédia de natureza sexual e/ou familiar) – os pais eram pais, os filhos eram filhos, os patrões patrões, os amantes amantes, etc.;

2º momento: um erro cómico (que existe no consciente de apenas parte das personagens se é que não só do público) provoca a desordem – pais e filhos querem a mesma amante, patrões e escravos o mesmo poder, etc.;

3º momento: o erro desfaz-se (passando ao consciente de todas as personagens) e uma nova ordem paralela à inicial é reposta. A comédia festeja a restauração de uma ordem: encara o presente como uma vitória e festeja-o.

Se da tragédia podemos dizer que se trata de uma estrutura que dá conta da aniquilação, da comédia diremos que ela dá conta da restauração (tudo isto o diz admiravelmente Northrop Frye). Ambas pressupõem uma idade do ouro que um erro (trágico; cómico) perverteu – irremediavelmente na tragédia, provisoriamente na comédia. E se o novo se sobrepõe ao antigo em ambas, a tragédia dá conta da dissolução do antigo enquanto a comédia dá conta da vitória do novo que vem restaurar a ordem perdida. Só Hamlet vive a tragédia; para Fortinbras toda a história de Cláudio e Gertrud é um erro provisório e o que ele pretende é restaurar o poder perdido pelo Pai Hamlet: Fortinbras seria o “central” de uma comédia em que o principal papel caberia a Hamlet.

A comédia festeja a restauração. E a comédia tem funcionado na História do Teatro como festa das classes que se aproximam do poder (e na formulação de Beauvoir diríamos: “uma apoteose do futuro próximo perante a inquietação do presente”) – ou não é do ponto de vista da burguesia já inevitávelmente próxima do poder que são escritas A Estalajadeira ou As Bodas de Fígaro se é que não mesmo A Noite de Reis ou Como quiserdes?

E agora do nosso ponto de vista – se depois de Maio de 68 é a tragédia que renasce em força (Botho Strauss, Jean Jourdheuil, Peter Handke, David Hare, Trevor Griffiths, Heiner Müller – ou ainda: Ronconi, Stein, Karge-Langhoff) e que a restauração que vivemos não é a nossa; e depois do 25 de Novembro? É possível a comedia, estrutura de “restauração”? Com paragens mais remotas que estas terras agarrámos quase nas origens da comédia, pegámos nas “comédias antigas” de Plauto, partimo-las em mil pedaços, reconstruimo-las em espectáculo e pretendemos continuar com isso o trabalho de resistência que afinal nunca deixemos de fazer, apostando que nestas famílias romanas estarão por certo as bases do estado dos nossos dias e que nas brincadeiras desta idade do ouro se revelarão talvez alguns dos mecanismos do poder que nos esmaga o dia a dia. A brincar com o fogo. A brincar com os mitos. Antes de Jesus Cristo.

 

Teatro da Cornucópia

Imagens

fotos de Cristina Reis ©