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Historial

111 - "Ela"

Ficha Técnica

 

"ELA"
de Jean Genet (1955)

 

Tradução e Encenação Luis Miguel Cintra

Cenário e Figurinos Cristina Reis

Desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção

Assistente de encenação e Contra-regra Manuel Romano

Assistentes para o cenário e figurinos Linda Gomes Teixeira e Luís Miguel Santos

Director técnico Jorge Esteves

Construção e montagem de cenário João Paulo Araújo e Abel Fernando

Montagem e Operação de luz e som Rui Seabra

Construção e conservação do Guarda-roupa Maria do Sameiro Vilela

Costureira Teresa Balbi

Assistente de Produção Tânia Trigueiros

Secretária da Companhia Amália Barriga

Cartaz Cristina Reis

Interpretação

O Contínuo Luís Lima Barreto

O Fotografo Ricardo Aibéo

O Cardeal Dinis Gomes

O Papa Luis Miguel Cintra

Figura de animal Manuel Romano

 

Música

Trechos das Méditations sur le Mystére de la Sainte Trinité de Olivier Messiaen.

Da pacem Domine: Verleih uns Frieden de Martin Luther, por Les Haulz et les Bas.

Panis Angelicus de César Franck: versão para órgão, arranjo F. Speller e versão Sting-Pavarotti, 1992

 

Lisboa: Teatro do Bairro Alto.

16/06 a 24/07/2011

(06 a 17/07/2011 integrado no Festival de Teatro de Almada)
nota: devido ao internamento hospitalar de um actor o espectáculo sofreu alterações de datas.
Esteve em cena até ao dia 13 de Julho)

19 representações

 

7 a 18/09/2011 (reposição).

11 representações

Agradecemos a colaboração de Paulo Cintra e Laura Castro Caldas 

Estrutura financiada pelo Ministério da Cultura/Direcção Geral das Artes

Este Espectáculo

Agora creio que ficará claro aonde fui buscar o ponto de partida para elaborar o espectáculo FIM DE CITAÇÃO: à pequena peça póstuma de Jean Genet: «ELA». Passa-se em princípio no Vaticano, mas o lugar é o mesmo teórico estúdio de fotógrafo, aqui talvez mais perto da pista de circo e no outro espectáculo de um palco de teatro. E é a mesma máquina fotográfica. Mudou o modelo e o fotógrafo. Em vez do actor do outro espectáculo, aqui é um Papa quem vai posar para o retrato. E se em FIM DE CITAÇÃO os jogos de poder que se misturam com a construção da imagem eram quase irrisórios, eram os jogos de sedução com que se tecem também as relações artísticas, aqui trata-se de fazer uma fotografia que deverá ser imagem oficial de um chefe religioso, de um grande poder político. A imagem tem função política. O próprio Papa a certa altura lhe chama uma impostura universal. Trata-se mesmo de poder, poder material e, pior ainda, espiritual. E agora, o Luís Lima Barreto, o actor que fazia de artista encenador insatisfeito, e que no outro espectáculo desesperadamente procurava a verdade para a imagem, passou a ser um Contínuo do Vaticano, ou seja, uma espécie de polícia detentor e executor das regras para a construção conveniente dessa imagem, um cínico que vive da impostura. E o novo fotógrafo, agora também outro actor, o Ricardo Aibéo, é um ingénuo que durante a sessão de pose entenderá a fraude do seu ofício, e verá ao longo da peça a ilusão da sua identidade ser destruída, enquanto que em FIM DE CITAÇÃO o fotógrafo, o filósofo Dinis Gomes, era capaz de ajudar o actor a redescobrir o sentido do seu trabalho. A sessão de fotografia é paralela mas em FIM de CITAÇÃO era da criação artística que se tratava, e em «ELA», quando muito, das suas consequências, de uma verdadeira violência, do poder de uma falsa imagem sobre as consciências, e das suas consequências na desintegração do ser. O ponto de vista pressupõe uma outra crueldade, outra lucidez, que, confesso, me é mais alheia. O restante elenco, a parte “espontânea” da questão, se no outro espectáculo era a alegria de um corpo lúdico, livre da auto-crítica, livre da ideologia maioritária, era a Sofia Marques, uma assistente/lola/enfermeira de belas e longas pernas, aqui essa função é substituída pela passagem de um perverso Cardeal quase despido por baixo da sua cappa magna, exemplo da banalização do corpo em clichés sexuais, ou, se quiserem, da representação da suprema sabedoria, a aceitação desencantada da pura superfície, a exaltação do momento como forma de viver para lá da mentira, a vitória sobre o desencanto, a reinvenção em si próprio da consciência do tempo. O diabo? De qualquer forma, quem mais se diverte, ausente de qualquer moral. Mas foi Genet no texto de «ELA» quem me sugeriu a artimanha de começar o outro espectáculo com a mesma situação. E, no fundo, de reinventar as mesmas figuras para outro jogo, afinal quase igual.

Diz o Papa ao fotógrafo, e esta fala explica o que me levou a pegar nesta peça sob outro ponto de vista, mas ainda a relação da arte com a vida, em especial, da arte do actor, à luz da consciência do tempo:

“Pergunta ao nosso amigo Fotógrafo se um actor de talento, qual quê!, de terceiro plano, um actor de província, não conseguiria mais depressa e  mais espontaneamente, um rosto mais pálido, mais comovente, mais eloquente que o meu? Estou a falar dum actor ateu, evidentemente – se ele existir -. No entanto, dos actores quase não ouso falar, de tal modo é grande o nojo que me inspiram – sabe porquê? É que, tal como eu, é a uma imagem definitiva que eles se referem.”

O mesmo assunto, claro, mas o que me interessou agora não foi tanto a relação das imagens com a vida, a natureza da criação artística, foi primeiro a ideia do absurdo, do nojo que provoca a tentativa de criação de uma imagem definitiva, foia ideia da contradição entre a construção de uma imagem que passe para além do tempo e a própria natureza da condição humana, necessariamente inserida no tempo, isto é, destinada a morrer. Que é, como se faz e que consequências tem a fabricação de imagens da vida. Como, em última análise, isso se transforma em exercício do poder, e como o exercício do poder sobre a vida de outros é maneira de negar a vida. A imagem ou é movimento de quem a constrói ou de quem a vê, ou é coisa moralmente reprovável, é maneira de parar o tempo e negar a morte, não é imagem de vida. É monumento. Instrumento de poder. E o teatro, a arte do actor tem de saber isso. E eu diria: fugir disso como o Diabo da cruz?

Em «ELA», Genet escolheu o Papa como o exemplo mais absurdo e teatral do disparate, uma divertida aberração. Como acontece com o actor em cena, é um ser vivo que tem de ser só imagem, não pode existir. Um Papa, ainda mais que uma personagem, não existe. É só ideia. E então? Um Papa, dois papas? Dois que não coincidem, não podem coincidir. Quem existe, escondido atrás da falsa imagem, ou da teórica imagem, ou da impostura, é um homem, um outro papa com letra minúscula, que passou a vida a matar-se, um antigo pastor de ovelhas que disciplinou um fervor esparso da sua adolescência, um desejo sexuado único, pessoal, e que, por desejo de subir até ao poder, substituição do seu desejo por um desejo aprendido e não inventado ou descoberto, levou a vida a desconstruir a sua identidade, a matar aquilo que segundo Genet é a máxima dignidade humana, a liberdade, o momento da identificação de cada um com a sua própria e única imagem, só possível e por um instante, quando se está completamente só diante do único absoluto, o Deus que cada um inventa, quando conseguimos pôr-nos diante do espelho, instrumento daquilo a que já chamei a atitude da oração, a aceitação do efémero, a vida como movimento. O Papa com letra grande é um símbolo, porque representa uma entidade abstracta, fora do tempo, espiritual, livre da morte, é o representante universal de Deus, como entidade absoluta, e como tal imutável. De uma entidade que por definição não tem forma humana nem o Homem pode sequer entender.

A nossa religião é dos humildes, dos que não têm nem querem ter poder, e tem-lhes prometida a eternidade. Mas percebe que, enquanto dura a vida, os humildes, como todos os infelizes, querem crer, e para isso precisam de imagens. A nossa religião conhece o Homem. E, por isso também, inventou para Deus um corpo de homem, Jesus Cristo, uma imagem humana, um ser humano que é por certo histórico, sujeito ao tempo, ainda que, para nós, Igreja, ele tenha ficado para sempre sem imagem, não sabemos que corpo tinha. É, no entanto matéria passível de todos os séculos lhe reinventarem uma imagem. Não é uma imagem de poder nem espiritual. É a imagem de um corpo, corpo crucificado em cada crucifixo. E pode ser espelho. Mas a ideia de que a própria ideia de absoluto, Deus, tem de ter uma imagem, é já por si suspeita, justamente porque Deus é por natureza inimaginável. Podemos tolerá-la, como concessão às humanas limitações em múltiplos e históricos e geniais disparates, já que só sabemos pensar através da nossa própria identidade. (E todos somos diferentes.) Quem não crê no Homem quando vê o Deus Pai de Miguel Ângelo no tecto da Sixtina? Ou então, e é isto que aqui se toma por exemplo, é uma forma de poder, negação da  liberdade, fórmula publicitária, falsa, uma maneira de dominar. Se não presumirmos má fé, vai dar à ideia genial do torrão de açúcar do Papa de Genet, genial porque o torrão de açúcar facilmente deixa de existir, perde facilmente a forma. Mas é absurda, não foi ainda adoptada pela Igreja, não pára o tempo, não domina. A Igreja tenta a imagem de um Papa que seja o representante de Deus (ou de Cristo?) na Terra. A tentativa não me faz sentido senão como vontade de poder. Não tenho nenhuma certeza de que Pedro e Paulo quando fundaram a Igreja dessem prioridade à criação de uma imagem de poder e de ostentação, mais do que a conseguir que, pelas verdadeiras razões, o maior número possível de pessoas vivessem a sua vida com a consciência de Deus, em espanto perante a maravilha da vida, do seu verdadeiro valor, com a consciência da morte.

Mas Genet, mais do que sofrer com estes problemas dos católicos, quer provocar inteligência, e quer divertir-se com a sua lucidez. O seu Papa é um pobre palhaço. E apesar de em tudo lembrar esse falso Grande Ditador do filme de Chaplin, Genet é o mais Moral dos criadores, mas nunca é moralizador como o grande cineasta, que depois da desconstrução do poder e da imagem de Hitler, genialmente assume no seu filme, o tom do melodrama reestruturador. Genet, fica de fora, gosta da vertigem, diverte-se com a sua própria lucidez, não escolhe para a sua peça um verdadeiro chefe, como o Hitler de Chaplin, ou Fidel Castro vivo, cujo convite para o visitar em Cuba recusou. Escolheu quem para ele não tem importância nenhuma. Disse numa grande entrevista a Fichte, que se o Papa o convidasse a ir a Roma, provavelmente aceitaria porque o Papa não tem importância.

Genet nesta peça, com a história da imagem do Papa, creio que está a falar de outra coisa. Se quiserem, da ideia de Deus, a do Deus desconhecido que cada um tem de inventar, sim, mas está a falar acima de tudo da necessidade de, contra tudo e contra todos, cada um se inventar de forma a transcender-se, está, como n’O Funâmbulo, a sugerir que viver é o contrário de criar imagens, e muito menos uma imagem oficial, é ser imagem de si mesmo, sempre em movimento, é a insurreição de cada um, é inventar o momento, o presente, conhecer que o tempo foge. E representa, com a peça, os malefícios do seu poder, numa estranha pantomima.

E está a falar da arte também. Da sua capacidade de insurreição. Não foi o primeiro nem o único a pensar no Papa para falar da questão. Velázquez também fez o retrato de um Papa, Inocêncio X. E a história desse retrato parece o ponto de partida desta peça: ao que parece Velázquez ofereceu-se para fazer o retrato do Papa e ao pedido do Papa para lhe dar um exemplo da sua arte, Velázquez respondeu com um retrato do seu escravo Pajero. Tão lindo retrato, que o papa se convenceu. E quando, depois de posar para Velázquez, se viu retratado, guardou o retrato mas não o aceitou como imagem oficial do Papa porque o julgou demasiado verdadeiro. Está claro, a imagem do Papa com maiúscula, ou é impossível ou tem de ser falsa.

Já no século XX e antes de Genet, também Francis Bacon voltou ao tema do retrato do Papa. Fazendo variações sem fim do quadro de Velázquez numa espécie de tentativa de definição do que é um retrato, que oscilam entre a mais violenta subjectividade, imaginando-se papa, e a tentativa da mais cruel objectividade, que resulta afinal num terrível expressionismo. Velázquez ao pintar Inocêncio X pintou um homem que é papa, não pintou o Papa. Conseguiu fazer da imagem oficial uma imagem humana. E creio que criou mais piedade por isso. Diga-se, de passagem que talvez a Igreja pudesse aprender quanto isso é bem mais santo que a ideia de que um Papa não pode ter cu porque Deus não tem carne, ou que, se fala ao telefone tem de ser de oiro maciço porque Deus tem de ser mais do que os outros e ser mais(+) no nosso tempo de regra capitalista significa ter mais cacau. “Cristo também era pescador…”

Genet creio que está mais perto de Bacon, ainda que talvez com mais distância. Menos colado àquilo que vê. Genet, como Bacon, pondo o Papa em cena, não retrata, retrata-se, ainda que com mais ironia e menos tortura que o pintor. E sobretudo não faz pintura e muito menos fotografia. Escreve teatro. Um texto que é proposta de presente, não tem carácter definitivo, propõe vida como qualquer texto faz, mas que um texto de teatro faz como nenhum porque o propõe aos actores para ser representado. Para dar origem a outra criação que deveria seria tão pouco definitiva e tão breve como a criação de um momento de luz. Propõe palavras que podem por um instante, mais que tecer um discurso, iluminar a humanidade. E que a mim mais que do Papa, me falam da humanidade, da mentira das imagens que não sejam pura matéria no seu esplendor, falam-me do ritual, sim, da sua carne, falam-me da arte como forma de transformação do momento da criação em momento presente. Falam-me do que me parece essencial na criação teatral, a recusa ou a impossibilidade de transformar um actor num criador de fotografias oficiais, num inventor de personagens e situações pré formatadas, ena possibilidade e sua capacidade de se tornar em metáfora, de se oferecer absolutamente presente e iluminado à liberdade de pensamento do outro.

A primeira vez que me veio à cabeça dizer isto foi já no princípio da vida, quando vi As Criadas, na encenação de Vítor Garcia. As actrizes faziam isso como ninguém. O actor tem de estar fora do tempo para falar do tempo e não para o parar. Nunca para o tornar definitivo, para o fotografar, para tornar a vidaem Morte. Só o actor pode ser imagem verdadeira de si próprio. Que o actor não se transformeem Papa. Que pelo menos seja «ELA», louco de desespero.

Que fique portanto claro que por mais que ao longo do espectáculo se evoquem tiques dos papas, mais do que falar do Papa, e de assuntos que por mais que digam respeito á igreja, creio que nem vale a pena discutir porque caberá ao Vaticano reconhecer a sua óbvia natureza profana e profanadora da sua responsabilidade religiosa, o que me interessa é a ideia de que tanto um Papa como um actor me inspiram nojo como ao Papa de Genet, afinal mais lúcido do que poderia esperar-se se, porque, como é costume, “é a uma imagem definitiva que eles se referem”, se tentam construir imagens para parar o tempo. Imagens irreais, enganosas.

Até que ponto pode existir uma imagem definitiva do homem, que não seja uma fraude, ou que se torne apenas em documento, em gelo, contrário ao movimento que define a vida? A Arte, como a Religião, e Manoel de Oliveira ousou dizê-lo a Bento XVI no CCB, confluem na sua função absolutamente necessária à nossa fragilidade de indivíduos num mundo massificador: são instrumentos da consciência individual da existência do tempo, são instrumentos da construção de metáforas para a consciência de milhões de almas, cada uma diferente da outra, a consciência da morte para todos, a busca de um sentido para a vida, afinal a busca de Deus, pura abstracção fora do tempo, imortalidade. A beleza disso mesmo.

Quer Papa quer actor têm primeiro de existir como pessoas, têm de ser, para depois se matarem e serem o que têm de ser: imagem metafórica. Neste papa ela é grotesca, porque em vez de falar dos homens lhe mandam que seja imagem de Deus e Deus não tem corpo, não é sexuado. Será por isso que os Papas são todos velhinhos? A metáfora do Homem é sublime se for sexuada e pode um actor construí-la com o seu próprio corpo sexuado.

Este texto, como todos os de Genet, é de natureza filosófica e realista, consiste, como o teatro devia ser, num ritual, na medida em que, com maior ou menor humor é um jogo de símbolos incarnados nos actores/seres humanos e como todos os símbolos, texto aberto, passível de ser preenchido por inúmeras leituras, ou tantas experiências pessoais, quantos os espectadores que estiverem na sala. Assim devia ser a liturgia.

O que me interessa aqui e a mim é o fulgor deste teatro absurdo. A natureza filosófica deste divertimento, mais uma vez a reflexão sobre a vida, desculpem, mas é a única questão, através da encenação desta morte, onde quem regula a construção da imagem é a legislação, a regra sem cara de que o Contínuo se serve para destruir a natureza daquele ingénuo caçador de imagens e impedir que o rapaz tire uma fotografia ao corpo verdadeiro daquele homem que tornaramem papa. Impedirque o conheça. Talvez para que ele, Contínuo, gato pingado, Cerebero á porta do inferno, se possa dar uma existência, transformando o seu ofício de guardião da imagem em prática de tortura, em espaço para algum fascismo, roubando a liberdade alheia. Sendo, por um momento que seja, vampiro.

Tudo isto pressupõe a coragem de escolher a solidão. Imagem colectiva da natureza humana, segundo Genet não há. Cada homem vale por si. E deve ter razão. E é por isso talvez que este assunto, aplicado a uma figura de Papa, se transforma tão facilmente em comédia, ou, vá lá, misturado com alguma piedade, em tragi-comédia. Tragi-comédiaabsurda. Patética: a história da construção de uma imagem daquilo que por definição não se vê, não se cheira, não se come, não se ouve: Deus. E que só em cada homem se pode encontrar. Mas é quase reconhecível também a economia de personagens da tragédia. Para mim o Papa sobrepõe-se ao Filoctetes de Sófocles, o Fotógrafo a Neoptólomo, o Contínuo a Ulisses, mas também o Contínuo de Luis Lima Barreto e o Fotógrafo de Ricardo Aibéo me lembram o Diabo e o Soldado na História do Soldado de Stravinsky. Provavelmente é a minha cabeça de actor que mistura já as memórias e as sobrepõe. Eu sei, a gente muito poucas vezes, a representar sai de si mesmo para ir habitar outras figuras.

E de repente uma dúvida me assalta: e se «ELA» fosse metáfora do próprio autor? Que só depois da sua morte podia deixar de ser fotografia? Que só depois da sua morte se pôde transformar em metáfora? Saint Genet, comédien et martyr de Sartre é de 1953, «ELA» de 1955. Genet tem 45 anos. «ELA», o Genet depois do livro de Sartre que o torna em imagem definitiva? O Contínuo, o próprio livro? O jovem fotógrafo os ingénuos que Genet desconstruiu em vez de amar? Seria nesse caso perfeita a demonstração do processo artístico da construção de imagens. “Les sanglots de Saint Genet”.

Em português “Os soluços, (ou os prantos) de São Gens”, de facto padroeiro dos actores, o actor romano do século III que a representar um papel de cristão, se convenceu tanto do que ele próprio representava, do que mentia, que um dia se converteu mesmo em cristão. Desceu sobre ele a Graça. E a mentira foi verdade, num momento supremo de luz. O momento em que o actor se inventou. Em que transformou a mentira na verdade de si próprio. E quando o puseram num altar, ouviu-se que chorava. Mas já era tarde demais, estava morto duas vezes: pelo Imperador Diocleciano e por uma imagem que já não era ele. E ele queria ser ele a imagem.

“Mas felizmente, na nossa pesquisa, naquela angústia”, para citar o nosso Papa, na orgia de metáforas que as palavras nos permitem e tecendo a vida com os trabalhos, e estes com os jogos de sentidos a que a inteligência nos condena, ou nos permite, naquela busca barroca de um absoluto qualquer a que se costuma chamar Deus, felizmente ainda me veio à cabeça nova ideia: e se «Ela» fosse afinal quem mais tememos, mas mais força tem de insurreição, porque é quem mais à vida nos agarra: Dona Morte? E esse malvado Contínuo o mesmo Caronte de sempre? Uma peça valente! E ancorada no presente. O nosso jovem fotógrafo ter-se-ia desviado, como o soldado do conto de Ramuz quando ia voltar à aldeia. Em vez disso foi à Feira e entrou no castelo fantasma. Achou estranho. Parecia estar no Vaticano. Mas eram manipansos as figuras que encontrava. Estava tão escuro que não conseguiu fotografar. Lembrou-se do soldado do conto que não conseguia tocar a rabeca. Tem uma vaga ideia de se ter cruzado com um marujo. Mas o fato era vermelho. E lembrou-se do Soldado que tinha vendido a alma ao Diabo. Mas foi tudo foi tão depressa que se esqueceu de tudo quando chegou a casa e a sua mulher Heloísa, que o amava, já tinha o jantar pronto para ele que a amava e para as duas crianças, o Pedro e a Jaqueline, feitas com amor, e acabaram por passar a noite diante das imagens da tv. Ele estava tão cansado que já nem via de que imagens se tratava, e adormeceu sem chegar a contar à mulher. Diz ela que em sonhos ele dizia: Ela? Ela quem? E ela perguntava: Ela? Ela quem? Mas ele não respondia.

Agora fecharam a Feira. Diz que a Democracia não deixa. Está tudo empatado com o processo de investigação da venda fraudulenta dos terrenos para a construção de apartamentos para jovens artistas. E todos os dias chega mais cedo a casa. Deixou de mentir. Ganha a vida com acções de formação na arte da fotografia. E mantém viva a família. Só tem pena de não ser casado.

Luis Miguel Cintra

Imagens

fotografias de Luís Santos ©