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108 - Fim de Citação

Ficha Técnica

 

Fim de Citação
Um prólogo, um “lever de rideau”, uma advertência

de Luis Miguel Cintra a partir de Beckett, Genet, García Lorca, Calderón, Kleist, Schnitzler, Luiza Neto Jorge, Shakespeare,Tchekov, Pirandello, Heiner Müller e Louis Jouvet

 

Encenação Luis Miguel Cintra com a colaboração de Christine Laurent 

Cenário e figurinos Cristina Reis

Desenho de luz Daniel Worm D’Assumpção

Assistente de encenação Manuel Romano

Assistentes para o cenário e figurinos Linda Gomes Teixeira e Luís Miguel Santos

Máscara Margarida Reis

Director técnico Jorge Esteves

Construção e montagem de cenário João Paulo Araújo e Abel Fernando

Montagem e operação de luz e som Rui Seabra

Costureira e conservação do Guarda-roupa Maria do Sameiro Vilela

Contra-regra Manuel Romano

Apoio musical Luís Madureira

Apoio técnico para o som Joaquim Pinto

Cartaz Cristina Reis

Videoclip Ricardo Aibéo

Assistente para a produção Tânia Trigueiros

Secretária da Companhia Amália Barriga

Interpretação

O Encenador Luís Lima Barreto
A Assistente de encenação Sofia Marques
O Contra-regra Dinis Gomes
O Actor Luis Miguel Cintra
O Urso Manuel Romano
Voz do Rui Rui Seabra 

 

Música

1. Dansons la Carmagnole, canção da Revolução Francesa, Philippe Gautier
2. SMS de Barcode Brothers
3. Joseph Haydn, Adagio em Fá, Hob XVII-9 interpretado por Alfred Brendel
4. Mozart, Agnus Dei da Missa da Coroação, em Dó Maior, K317, pela Stich Randall e a Orquestra de Câmara da Sarre, maestro Karl Ristenpart.

 

Agradecemos a colaboração de Paulo Cintra e Laura Castro Caldas

 

Lisboa: Teatro do Bairro Alto.18/11 a 12/12/2010

21 representações

 

Estrutura financiada pelo Ministério da Cultura/Direcção Geral das Artes

 

Este Espectáculo

Este espectáculo não estava programado. Nasce de um imprevisto, da necessidade de substituir uma co-produção que não pôde realizar-se. Ajudado pelas circunstâncias, pôde, portanto, ao contrário do que já é costume exigir-nos o sistema, nascer de repente, de improviso, corresponder a uma necessidade presente.

Sentimos que o tempo tem passado e que mudou. Caminhamos a passos largos para uma lógica de mercado nas artes dos espectáculos que cada vez nos empurrará mais para o mesmo desprezo pelo público que é próprio das empresas comerciais: cada pessoa, mais que pessoa será um porta-moedas. Valerá tudo menos perder dinheiro. A lei será: agradar ao cliente. Para que compre mais. É uma lógica que ofende a nossa maneira de estar em campo. E contra ela sentimos necessidade de reagir, voltando a repensar e a afirmar a natureza profunda do nosso trabalho e da sua relação com os outros, a quem sempre estimámos como seres pensantes, tão dignos de respeito como nós próprios.

Ao longo de 37 anos de actividade várias vezes nos tem acontecido sentirmos a vontade de fazer um balanço, ou criar uma estação para talvez escolher novo caminho. O espectáculo Miserere já era isso que anunciava. E a programação que fizemos para esta temporada de 2010/2011 também: A Cacatua Verde de Schnitzler e A Varanda de Jean Genet. Não sei se a conseguiremos cumprir perante a nova situação dos recém anunciados cortes de 23% aos apoios já atribuídos pelo Estado ao trabalho das companhias de teatro para além da geral sobrecarga de impostos. Por mais que nos tenhamos habituado a fazer “ópera por vinte cinco tostões”, um tão mais baixo financiamento irá por força traduzir-se em menor produção. A menos que possa surgir alguma outra fonte de financiamento, o nosso Outono, pelo menos, terá de sofrer com isso. Mas aquilo que queríamos representar até ao Verão são textos em que o próprio teatro aparece como tema e de forma menos restrita que a da mera reflexão ou referência aos seus vícios e virtudes. Em ambos os casos intervém o teatro tomado como máscara, e a máscara como parte ou forma do ser. São textos em que se fala da existência humana, mais que do teatro. Este Fim de Citação, nascido de improviso, vem abrir essa temática relacionando-a com a própria história da companhia. É uma espécie de prólogo para os outros futuros espectáculos. E corresponde a uma necessidade de clarificar o que está em jogo quando trabalhamos como trabalhamos, e de recusar a estática imagem pública a que nos querem reduzir. O resultado, com a lealdade com que queremos continuar a tratar os espectadores, foi um espectáculo diferente do costume, se é que a nossa maneira de fazer se tornou tanto em hábito como me querem fazer acreditar. E que não recorda com saudade nem arvora como bandeira o já feito. Antes tenta dar um passo em frente.

Eu, que julgava que era claustrófobo, consegui no outro dia passar sem sustos por um túnel de 3 quilómetros. Deduzi que estou, pelo menos, a perder o medo, e quem sabe se a ganhar o gosto pelo desconhecido. Sendo, como a psicanálise tantas vezes explica, contraditórias as imagens dos sonhos, esse sintoma do fim da claustrofobia, interpreto-o eu em mim mais como sinal de um desejo de pisar um desconhecido campo aberto que de me meter num buraco na terra. Tenho de facto vontade de mudar de pele, como acontece a alguns bichos de ano a ano. Perdendo, como Othello com o equívoco do lenço de Desdémona, “my reputation”? É bem possível. Ainda não há muitos anos afirmava alto e bom som que não queria ser autor no meu trabalho de encenador mas só um intérprete. Desde o já referido espectáculo Miserere que apresentámos no Nacional e que tantas e tão violentas reacções de sentidos contrários provocou, que comecei a tomar o gosto por assumir uma responsabilidade que estará próxima da que tem um autor. Tomei nesse espectáculo a liberdade de, com as palavras do Auto da Alma e outros textos de Gil Vicente, tecer com a fantástica cumplicidade dos actores, da Cristina Reis e do Daniel Worm, (que coisas boas nos traz o tempo e o coração!), um discurso diferente daquele que o texto encenado contém. É-me de facto muito difícil como encenador de teatro, aguentar a pressão de uma opinião pública que já classificou o Teatro da Cornucópia com um selo de garantia de produto de qualidade e que não lhe quer já deixar campo livre para ainda ter dúvidas, porventura errar, mas tentar surpreender, e que dele espera já tão-só a confirmação do já conhecido. O nosso tempo não nos dá de facto muito tempo para errar, ser vulnerável, correr riscos. Querem por força trocar o risco e a dúvida pela eficácia, mesmo quando ela mascara a incompetência. É pena, porque é exactamente isso que nos faria progredir. Miserere foi um espectáculo que todos quisemos que abalasse convicções tidas por certas. Nossas e do público. E um dos momentos de maior felicidade pessoal nos 37 anos de trabalho que estamos a cumprir. Foi na sequência disso, e na novíssima disponibilidade e vulnerabilidade que descobrimos numa parte do público que o viu, aqueles espectadores que, como eu mais ansiosos estão de uma mudança de valores para a sua própria vida, que surgiu este espectáculo. Estamos prontos para novas aventuras. E com o humor que deve ser o sal da vida.

Chama-se Fim de Citação porque é feito de muitas citações mas, ao fechar aspas, abre necessariamente o nosso próprio discurso. Podia talvez ter outros nomes. Podia chamar-se “pot-pourri”, mas já ninguém sabe o que é. Na culinária é um guisado que mistura muitas carnes e legumes diferentes. Há quem me diga que em português se diz “roupa-velha”: os restos. São nomes feios e não seria verdade. Diz a Wikipédia que o “pot-pourri” também é “um termo originalmente utilizado para fazer referência a qualquer coisa que eu não desejo conhecer: “uma jarra com uma mistura de pétalas de flores secas e especiarias utilizada para perfumar o ar.” Não, por aí, então, é que nunca iríamos. Preferimos o “fedor a lua velha” de que fala Lorca. Para mim seria, quando muito, como quando na música se faz uma colagem de temas de várias peças musicais, um “patchwork” que neste caso não seria de sucessos mas teria alguma coisa da mistura de temas conhecidos. Um “medley”? “Megamix”? Não é de sucessos que se trata, até porque, mais que de momentos de êxito, o nosso trabalho se tem feito de uma continuidade. E sobretudo tentei que o espectáculo tivesse uma estrutura, e que as citações escolhidas tivessem a coerência que reivindico para o que fazemos e que se notará na selecção de citações dos textos com que ao longo dos anos tenho acompanhado os nossos espectáculos e que escolhi para este programa. Não dei por isso, mas, como se vê, remoí o assunto toda a vida. E justamente porque, como gostamos de lembrar neste espectáculo, é de vida que se trata, e não de um supérfluo passatempo.

Talvez fosse melhor chamar-lhe um “impromptu”. Um tipo de espectáculo de que o exemplo mais famoso é o Impromptu de Versailles de Molière, o tal que morreu em cena, uma peça sobre o teatro em que ele se põe em cena a si próprio e onde leva com ironia uma personagem a dizer que: «A intenção (de Molière) é pintar os costumes sem querer atingir as pessoas, e todas as personagens que representa são personagens inventadas que veste à sua maneira para divertir os espectadores» (Le dessein [de Molière] est de peindre les mœurs sans vouloir toucher aux personnes, et que tous les personnages qu’il représente sont des personnages en l’air, [...] qu’il habille à sa fantaisie pour réjouir les spectateurs » (scène IV). Sim, é verdade que também no nosso Fim de Citaçãofingimos que as suas quatro personagens são meras abstracções, quando a verdade é que nos estamos vendo ao espelho. Mas um “impromptu” esconde-se numa aparência de improvisação, ou de espontaneidade, como sabemos da música, (oiçam-se os impromptus de Chopin, Schubert, Schumann, Lizt, Scriabin, Sibelius). O nosso espectáculo tem uma mais que pensada e desprotegida construção. Mas à semelhança do tal “impromptu”, é uma caixa dentro de uma caixa, tenta abrir um abismo dentro de si próprio. A “arte de Talma” quer aqui pôr-se em causa, descendo degrau a degrau para dentro de si, e expor-se aos outros no mais fundo de si própria.

Seria divertido chamar-lhe “loa”, subgénero dramático cultivado no Século de Ouro espanhol que se representava antes da primeira jornada das comédias para predispor positivamente o público, elogiando a cidade ou apresentando a companhia. Não sei se louvamos o que temos feito ou como temos estado em cena toda a vida, mas, a brincar a brincar, quisemos aqui expor uma enorme e quantas vezes dolorosa paixão pelo nosso ofício. Mas para lhe dar o sal de que assunto tão sentimental necessitava, acabei por chamar-lhe, lembrando antigos pedantismos de portugueses que falavam francês, um “lever de rideau”, dado que seria inconveniente a sua mais crua versão inglesa (“curtain raiser”). Atenção, que não disse “curtain razor”, por mais barbas que tenha a cortina do teatro. E talvez não faltasse quem gostasse de aí fazer razia, não só à cortina mas a tudo, tudo a eito, à navalhada, para abrir espaço e instalar ainda maiores televisões. Não, trata-se em inglês ou francês, de uma pequena peça que se representava antes de subir o pano para o prato forte de uma noite, para “aquecer” o espectador. Um “Teaser”? Sendo evidente que nem há cortina, ou pano de boca, no nosso teatro, nem é viável levantar seja o que for. Mas este espectáculo vale como um prólogo, sim, e uma advertência, como dantes se escrevia à cabeça de um livro. Quis de facto prevenir o espectador: mais que de teatro, falamos da arte e a vida, da coisa e da imagem, do pintor e seu modelo.

Foi a partir de um quadro que todos conhecemos, Las Meninas de Velazquez, que toma por tema a própria pintura, e de uma peça de Beckett já por nós representada que aparentemente põe em cena um ensaio de teatro, Catástrofe, ambas coisas, no fundo, obras de auto-ironia, dois auto-retratos, que construímos este “divertissement”. Foi assim que escrevi a didascália que deu origem a este espectáculo e a este cenário: “A referência de imagem é o atelier do pintor com o seu modelo. “As Meninas” de Velásquez, claro. Mas sobretudo porque há quem assista. E tal como no quadro, quem olha não é pintor. Devia haver um espelho que, tal como nas Meninas reflecte o rei e a rainha, o modelo, aqui reflectisse o público, o actor de costas e o encenador de frente.” O olhar retratado, como no quadro, coincide com o do tema pintado, afinal o trabalho do autor, mas engloba toda a gente, os que olham quem olha, também, num intrincado jogo de espelhos. Mas em vez do rei e da rainha, naquele espelho do fundo, todos nós. As personagens vêm do Beckett, acrescidas de um “Traspunte”, o ponto, aqui substituído, com o mesmo fato, pelo nome feliz de um “Contra-regra”, que vem de Lorca mas que fala quase sempre como Genet. E o ponto de partida da acção, a sessão de fotografias, é do Elle de Genet que vem, substituindo-se o Papa por um actor na posição que evoca a nossa segunda encenação de A Missão de Heiner Müller, mais concretamente o seu monólogo do elevador que colámos à imagem de um herói proletário, empunhando a bandeira petrificada da Revolução (francesa ou comunista, no texto de Müller e aqui, nesta complicada anacronia e saudável anarquia, tanto faz), a propósito da queda do regime soviético, para falar de traição: A REVOLUÇÃO É A MÁSCARA DA MORTE/A MORTE É A MÀSCARA DA REVOLUÇÃO. Queríamos com este espectáculo fazer o que, com as devidas distâncias, Picasso fez com a sua versão de Las Meninas, voltar a pintá-las até à exaustão para as entender. Repensar a arte e a vida, trazendo para o palco, como ele para a tela, a consciência da passagem do tempo.Ad usum mortalis. E qual não foi o nosso espanto quando nos aparece, já terminado o espectáculo, na publicidade do El Corte Inglés, uma outra maneira de citar o mesmo quadro que é a melhor imagem do que pode ser a nossa contemporânea vida com a sua violência do mercado, agravada pelo slogan que se lhe sobrepõe: “Bienvenido donde la moda es arte.” A vitória do efémero contra a consciência da morte. Nada se podia inventar de mais oposto e de mais a propósito daquilo que tentámos aqui fazer, sendo também neste caso, como na formulação de Heiner Müller, arbitrária a ordem dos factores: LA MODA ES ARTE/EL ARTE ES LA MODA. “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.”

Não é só por estarmos mais velhos que a Morte nos surge a cada esquina, ela está de facto sempre em cena, por mais que se queira tapar o sol com a peneira. A cegueira do nosso tempo em que há peste mas, apesar de tudo, e felizmente, não é a peste negra, mais nos leva a lembrar a Morte e a trazê-la para o palco. E é com júbilo que, aproveitando palavras de Genet, neste espectáculo a pomos no centro da verdadeira vida, nesse céu estrelado cheio de constelações que sonhamos para ela e que só é dado viver a poucos heróis. Adoptámos neste espectáculo a transformação da Morte em Festa de que tão lúcido artista faz bandeira.

E voltando a Madrid com a também nossa digressão em Espanha de outra Dança da Morte/Dança de la Muerte, espectáculo que fizemos com amigos espanhóis e em que continuo a trabalhar, e revendo as toneladas de Rubens que estão no Prado, deparei com cinco pequenas alegorias suas e de Jan Breughel, o velho, que representam os cinco sentidos. (É verdade, tal como a personagem de Kleist que no espectáculo citamos, quando saímos da nossa terra temos o gosto de ir aos museus). Percebi melhor como explicar que espectáculo estávamos a fazer: uma alegoria. Tal como nesses pequenos quadros duas figuras (Vénus e Cupido?) se integram num espaço concreto de aparentes dimensões reais mas imaginário e simbólico do melhor objecto de cada um dos sentidos (uma sala cheia de quadros e estátuas para a vista, outra cheia de flores para o olfacto, instrumentos para a música, armaduras para o tacto e viandas para o gosto), também aqui imaginámos um espaço simbólico de existência concreta, meio palco meio aquário (lembrando-nos outra vez de Gilles Aillaud e aqui do seu palco-aquário para a foca), que pode talvez ser um estúdio de fotografia ou um atelier de pintor ou uma sala de ensaios, onde o objecto dominante é o espelho, objecto fundamental para o auto-retrato, ou para a criação de uma imagem da existência humana. Uma alegoria da arte. Mais que uma alegoria do teatro fizemos com o teatro uma alegoria de todas as artes, mas que no teatro ganha forma pelos actores com os seus corpos e seus fatos, com as palavras que proferem, com o seu pensamento, com as suas emoções e os seus conflitos. Uma luta, a luta que no teatro se trava para conseguir trazer para cena a existência humana, para se tornar espelho da vida, para ser imagem e modelo ao mesmo tempo. E que, ao tornar-se em imagem, ás vezes transcende o modelo. Põe-no em causa e ajuda-o a viver. Matando o que era para voltar a nascer. Por isso se diz que o actor é incêndio. Por isso se fala de fogo. O momento dessa transcendência, como o fogo, é luz e combustão. Morrer e Nascer ao mesmo tempo. “Arrancar a erva para que ela volte a crescer?” Como qualquer processo revolucionário? Como a evolução da Humanidade?

Fomos encontrar na belíssima frase de um actor de génio, Louis Jouvet, com que fechamos o espectáculo, e que é ao mesmo tempo uma auto-citação, porque já noutro espectáculo há muitos anos a evocámos, (“Condenados a explicar o mistério da sua vida, os homens inventaram o teatro.”) a formulação mais simples daquilo de que falamos: um sofrimento que é tentativa de recuperação de uma pureza original. Uma ânsia de absoluto ou de paz que queríamos que fosse sinónimo da condição humana. E que no teatro toma corpo, transformando-o num “paraíso artificial e temporário”. O Agnus Dei de Mozart em “play-back” (também ele já utilizado noutro espectáculo nosso), é aí que se justifica nesta nossa alegoria: e com alegria fingimos que cantamos:”dona nobis pacem”. Com menos alegria e menos paz mas igual vontade de nos expormos, colocámos no coração do espectáculo o poema em que com a metáfora do fogo a Luiza Neto Jorge nomeia o actor para falar da vida como desespero. 

Tudo isto quisemos fazer, mas à simples e pequena escala humana que é a nossa. Num trecho do Canto do Cisne de Tchekov e numa ou noutra citação de Schnitzler nos apoiámos para voltar a este “bicho da terra vil e tão pequeno”. E na construção de pequenos falsos conflitos entre estas quatro personagens. Não se vive por extenso. Em vão procuramos a coerência de um discurso. É nas nossas contradições e em tanto inconsciente, que se vai gerando o viver e tentando conquistar sabedoria. E com aquilo que de geração em geração com a prática artística de tanta gente se vai acrescentando à consciência humana, com erros, fragilidades, tentativas. Quando citamos através de objectos, fatos, frases, atitudes, coisas do nosso próprio passado, não é para falar da História da Cornucópia, é porque de tudo ficou uma memória afectiva e ela já faz parte da nossa maneira de pensar. Tanto como tudo o que outros fizeram. Será que, para falar noutra arte, o cinema, sem termos conhecido a forma de utilizar a colagem na linguagem dessa arte, de um realizador como Godard, teríamos a ousadia de manipular textos tão diferentes com a mesma liberdade? E, voltando a gente de “nossa casa”, sem ter passado (há tantos anos) pela experiência do “play-back” das Bodas de Fígaro no filme Vertiges da Christine Laurent, me teria passado pela cabeça pôr na boca da Sofia Marques a voz da Stich-Randall? Quem teve a bela ideia de me oferecer, teria eu 20 e poucos anos, esta gravação que sempre me acompanhou, da Missa da Coroação? E sem tantas outras pequenas e mais privadas memórias de trabalho artístico com que recheámos o nosso espectáculo, de que se alimentaria a imaginação? De lugares comuns? Como havíamos de conseguir esse encontro com os outros que é sinónimo quer da arte quer da vida?

Luis Miguel Cintra

Imagens

fotografias de Luís Santos ©


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