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Historial

34 - Três Irmãs

Ficha Técnica

 

Três Irmãs
de Anton Tchekov

 

Tradução Augusto Sobral, Carol Loff e Rui Mendes

Encenação Rui Mendes

Colaboração dramatúrgica Luis Miguel Cintra

Cenário e figurinos Vera Castro

Assistentes de cenografia Mariana Sá Nogueira e Frederica Ferreira

Montagem Fernando Correia

Ajudante de montagem Carlos Costa

Música e selecção musical Paulo Brandão

Banda sonora Vasco Pimentel

Iluminação Luis Miguel Cintra

Montagem eléctrica e operação de luzes José Eduardo Páris

Operação de som Pedro Melo

Guarda-roupa Emília Lima

Costureiras Ofélia Lima, Antónia Costa, Maria Conceição Alves e Noémia Rosa

Guarda-roupa masculino José Carlos Almeida e Alfaiataria Roma

Direcção de cena Teresa Madruga

Postiços Casa Vítor Manuel

Colaboração para os adereços Linda Gomes Teixeira.

Nota: Parte do guarda-roupa militar pertence ao espectáculo As Três Irmãs desenhado por José Costa Reis para o Teatro Nacional e gentilmente cedido por aquele teatro.

Interpretação

André Sergueievitch Prozorov Luís Lima Barreto

Natalia Ivanovna (Natacha), sua noiva, depois sua mulher Teresa Madruga

Olga, sua irmã Alda Rodrigues

Maria (Macha), sua irmã Márcia Breia

Irina, sua irmã Luísa Cruz

Fedor Ilitch Kuliguine, professor de liceu e marido de Macha José Manuel Mendes

Alexandre Ignatievitch Verchinine, tenente-coronel Luis Miguel Cintra

Nicolau Lvovitch Tusenbach, tenente José Wallenstein

Vassili Vassilievitch Solioni, capitão Rogério Vieira

Ivan Romanovitch Tchebutikine, médico militar Ruy Furtado

Feraponte, contínuo da Administração Rural Gilberto Gonçalves

Anfissa, velha ama Maria Cristina

Alexei Petrovitch Fedotik, alferes Miguel Guilherme

Vladimir Karlovitch Rodé, alferes Filipe Crawford

Uma criada Mónica Calle

 

Músicos

soprano Leonor Beltran

piano Paula Carvalho

violino Mário Resende

 

Apoio de Braz e Braz, Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Nacional S. Carlos, Conservatório Nacional, Centro de Arte Moderna, João Perry, Maria do Bom Sucesso Wallenstein, Dulce Barroso e Conceição Vidicas

 

Lisboa: Teatro do Bairro Alto. Estreia: 25/03/1988

50 representações

Companhia subsidiada pela Secretaria de Estado da Cultura

 

Este Espectáculo

O Teatro da Cornucópia não é nem quer ser uma “companhia de reportório”. Muitas vezes o temos dito. A nossa função não é, não deve ser, a de ir apresentando com a máxima regularidade, qualidade e dignidade possíveis os grandes textos do reportório teatral de todos os tempos como o fazem tantas companhias institucionalizadas de outros países onde existe um público regular e rotineiro para essa actividade cultural. Nem a Cornucópia tem condições para ser uma instituição, nem o é de facto, apesar de tanta gente gostar que fôssemos e de dizer que somos, nem em Portugal, felizmente talvez, já existe o público capaz de alimentar esse género de companhias, nem a nossa “maneira de ser” o permite. Esta companhia só é possível por paixão. E para prová-lo bastaria a prática para que nos empurra o coração de sempre nos lançarmos a projectos mais ambiciosos que os meios que temos, de termos mais actores a trabalhar, de não pouparmos em cenários e guarda-roupa, nem na edição de textos de apoio, por exemplo, em vez de investirmos na criação de bases técnicas e administrativas para um funcionamento regular, “profissional”, sem cansaço e sem tensões. E se tantas vezes se confunde a nossa escolha de textos com a de uma companhia normal de reportório é porque de facto temos percorrido já muitos grandes autores de todas as épocas e a nossa teimosia é enorme e tem sido regular. Mas nunca levámos à cena um espectáculo sem razões de vida, nunca escolhemos um texto sem antes conhecermos a sua relação connosco. E neste “nós” incluímos evidentemente o público que vamos tendo. E acima de tudo nunca fomos capazes de entrar num trabalho sem lá deixar pele e osso. Pôr em cena três irmãs de Tchekov é um caso que se presta a confusões, como quando levámos à cena ricardo iii de Shakespeare. Tanto mais que aqui nem a encenação do espectáculo, nem os tradutores, nem o cenário e figurinos estão a cargo da equipa que normalmente marca o “tom” do trabalho da casa. No entanto, mais uma vez este espectáculo é todo construído com o coração.

três irmãs não é só uma obra-prima absoluta. É um texto que fala de nós, de como nos amamos, de como nos não sabemos amar, de como nos reprimimos, de como vivemos agarrados uns aos outros, de como não sabemos construir a nossa vida, de como não sabemos ou não podemos ser felizes, de como vivemos mal. “Que mal viveis, meus senhores!” É um texto que nos confronta com a nossa persistência em viver uma utopia. Passaram já cem anos quase e o tempo em que “a vida há-de ser extraordinariamente bela, espantosa”, esse tempo de que fala o Verchinine e a Olga, parece estar cada vez mais longe. Todos trabalhamos já e a felicidade continua a estar adiada para “os descendentes dos meus descendentes”. Nada mudou, como previa o Barão Tuzenbach? A vida será sempre o que foi? Feliz? Porque não desistimos já de ser utópicos? Seremos resignados? Como nós, os personagens de três irmãs não falam de revolução. Como nós não sabem se vivem a sua decadência ou se constroem o mundo novo. três irmãs põe-nos o mesmo dilema da cena final de grande paz:

Mulher: “Se eu pudesse tirar o ar do corpo dos mortos com o cuidado de quem põe um grão de areia em cima de outro, quando o ar lhes saísse da boca talvez as línguas deles falassem e me dissessem porque razão vivemos e sofremos e porque vivemos nesta terra e somos enterrados nela, se tivessem morrido com a verdade na boca”/.../

Homem: “Deixe, os mortos não podem responder. Viva até que o seu próprio tempo morra. Até lá responda você às perguntas.”

três irmãs é outra vez um texto que nos obriga a responder às perguntas. Perguntas a que, com certeza, mais uma vez não respondemos.

Não sei se somos os personagens de Tchekov. Não sei se quereríamos sê-lo. Uma coisa sei: estou mais próximo deles que do olhar que Tchekov lhes lança. Nunca quis encenar Tchekov. Sempre tive medo de dar forma a um olhar cuja inteligência me escapa, a cuja inteligência me sinto incapaz de responder. Como se qualquer encenação ficasse sempre aquém de textos que nos dizem demais e que nos conhecem melhor que nós. E se Shakespeare ou Mozart já têm a distância que a retórica ou a música lhes dão e que nos defendem de lhes limitar o sentido, Tchekov está demasiado perto para que não nos obrigue a uma “interpretação”, que corre sempre demasiados riscos de ser limitada e de reduzir o sentido do texto. E Tchekov, talvez por isso mesmo, está preso demais às versões que dele fizeram. Tchekov é um autor moderno. Escreveu no tempo em que começou a “arte” da encenação, arte em que, aliás, começo a não acreditar. Tchekov escreveu para a companhia de Stanislavski e Dantchenko. E não é possível encenar Tchekov sem também se opor ou não às versões de Stanislavski, de 0. Krejca, de Peter Brook, de Strehler, de Stein, por aí adiante. E até, à nossa medida, às três irmãs de Rogério de Carvalho e do Grupo da Trafaria. É difícil ser-se inocente que chegue para encenar Tchekov. Mas os textos de Tchekov têm de ser vividos. Têm de ser vividos por actores. E o público tem de viver com eles. Quisémos fazer um espectáculo de actores. Um espectáculo feito pelos actores. Este é um espectáculo encenado por um actor com quem gostámos de trabalhar e capaz de pegar neste texto a partir do ponto de vista dos actores sem medo da “versão” que daí resultar. Representado por um grupo de actores que me orgulho de dirigir. Aí também é um espectáculo construído com o coração. E com aquela margem de risco que uma companhia que não é uma companhia de reportório tem paixão de correr. Abrindo as portas a outras pessoas, mais actores, mais cenógrafos, sem jogar no seguro, sem medo de decepções, com a inocência que não queremos perder. Com a certeza de que nessa “multidão de cem mil almas” teremos sempre, como tivémos, boas surpresas, grandes alegrias. E porque, como diz Tchebutikine no fim da peça “Tanto faz! Tanto faz!”.

 

Luis Miguel Cintra

Imagens

fotografias de Paulo Cintra, Laura Castro Caldas e Rui Mendes ©