Pesquisar

Historial

41 - Muito Barulho Por Nada

Ficha Técnica

 

Muito Barulho Por Nada
de William Shakespeare

 

Tradução Sophia de Mello Breyner Andresen

Encenação Luis Miguel Cintra

Assistente de encenação António Fonseca

Cenário e figurinos Jasmim

Assistente de cenário e figurinos Tatão

Música Constança Capdeville, Paula Azguime e Miguel Azguime

Direcção musical Constança Capdeville

Coreografia Elisa Worm

Montagem Fernando Correia

Guarda-roupa Joaquina Garcia

Costureiras Sara Costa, Esmeralda de Sousa, Conceição Galo, Idália Faustino e Madalena Lua

Confecção de cintos e botas Artepele

Adereços especiais Luís Mouro

Iluminação Luis Miguel Cintra e José Eduardo Páris

Contra-regra Alfredo Martinho

Caracterização Maria do Carmo Monteiro

Produção Amália Barriga, Amadeu Neves e Luís Guerra

Cartaz Cristina Reis

Colaboração Prof. Graham Broome-Levett

Interpretação

Leonato, governador de Messina Luís Lima Barreto 

António, seu irmão Carlos Vieira de Almeida 

Hero, filha de Leonato Luísa Cruz 

Beatriz, sobrinha de Leonato Márcia Breia 

Margarida, aia de Hero Teresa Madruga 

Ursula, aia de Hero Maria José 

D. Pedro, príncipe de Aragão José Wallenstein

Cláudio, de Florença Miguel Guilherme

Benedito, de Pádua Luis Miguel Cintra 

D. João, irmão bastardo de D. Pedro Luís Lucas 

Borráquio, séquito de D. João António Fonseca 

Conrado, séquito de D. João Adriano Luz 

Baltazar, mensageiro e um cantor ao serviço de D.Pedro Manuel Cintra 

Abrunho, chefe da guarda Rogério Vieira 

Varas, seu compadre Gilberto Gonçalves 

Frei Francisco Canto e Castro (cedido pelo CDIAG)-participação especial

Rapaz, Mensageiro e Sacristão João Coutinho Cabral

Cavaleiros do séquito de D. Pedro e Guardas Rui Mata-Mouros, Rui David e Jorge Parente

Raparigas de Messina Isabel Baleiras, Maria Granja, Natália Vieira, Paula Alexandra e Verónica Filipe 

Músicos Miso Ensemble (Paula Azguime e Miguel Azguime), José Pontes e Manuel Cintra

 

Nota: O papel de Frei Francisco foi ensaiado pelo actor Ruy Furtado, recentemente hospitalizado. A poucos dias da estreia o actor Canto e Castro veio generosamente substitui-lo nessa participação especial.

 

Apoio de António Pires, Pro-Tea, Fernando Gomes, José Eduardo-CDIAG, Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa e Casa Alcobaça

 

Lisboa: Teatro do Bairro Alto. Estreia: 24/10/1990

64 representações

Companhia subsidiada pela Secretaria de Estado da Cultura

Apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e do British Council

Este Espectáculo

Representamos Shakespeare outra vez. E outra vez nos comove a mesma imagem magnífica do Homem que o Renascimento descobriu. Comove-nos ainda como referência, comove-nos talvez como coisa perdida. Mas RICARDO III interessou-nos como moralidade, como exposição de uma ordem do mundo no sentido vertical onde o Homem está no centro, quase à altura dos nossos olhos, sozinho em conflito consigo próprio, dentro da hierarquia social a que Deus preside, e muito barulho por nada interessou-nos desde sempre como corte transversal dessa mesma hierarquia, como exposição da vida naquilo que a entretem, a relação com os outros. É o mesmo Homem, sempre que está em cena. Mas não o vemos da mesma maneira. Ricardo III é a história de um Rei e bastaria a presença de um rei em MUITO BARULHO POR NADA para impedir essa visão horizontal da sociedade, bastaria um Rei para impedir que o assunto da peça fosse a relação dos personagens num mesmo plano (“Se eu fosse tão tedioso como um rei”, diz o filosofante Abrunho). Em MUITO BARULHO POR NADA há um Príncipe longe do seu principado e até este Príncipe não pode pertencer à ordem daquele mundo que por uns dias visitou, e por ser um Príncipe terá de voltar ao mundo verdadeiro. RICARDO III fala da relação do mundo com Deus. Fala de poder, fala do erro do Homem quando se quer substituir a Deus. muito barulho por nada não fala de poder. Fala da harmonia das esferas, confia na ordem divina. Deus preside sorridente à desordem dos corações, aos pequenos erros dos Homens. Se em RICARDO III fomos levados a construir um estrado, uma tribuna para que o Homem contasse ao mundo o seu orgulho e a sua ambição, um edifício à imagem dessa imagem hierárquica do mundo, mas também uma plataforma para um discurso, é porque aí sentimos que o Homem se contava a si próprio. Em MUITO BARULHO POR NADA o Homem é visto do lugar de Deus, e por isso fomos levados a querer vê-lo de cima, perdido num espaço que, ao contrário do outro, não tem limites, uma mesa de jogo, um tabuleiro. O espaço de MUITO BARULHO POR NADA não pode ser o estreito e rígido espaço que o Homem traçou para a sua relação com Deus ou o espaço da escada social, é o espaço imenso da humanidade onde as relações dos homens uns com os outros, vão, sim, construindo e destruindo sucessivos espaços, sucessivos padrões, sucessivos desenhos, generosos, impulsivos, tontos ou inteligentes, gratuitos.mas RICARDO III é uma crónica e MUITO BARULHO POR NADA é uma comédia.

MUITO BARULHO POR NADA passa-se num país de convenção, numa cidade de Messina imaginária, por acaso ou não numa ilha, a Sicília. E a história que aqui se passa é uma história de convenção. A história do casamento de Cláudio e Hero é a história paradigmática de todas as renovações, e a história do ciclo natural do mundo, é o ciclo vida-morte-vida, é a sucessão da Primavera ao Inverno, é a Páscoa. Não há dúvida, é da vida que se está a falar, com a confiança que nos dá a ordem natural das esferas. Mais do que país de convenção, o lugar onde se passa esta comédia é um lugar mítico onde um esquema de tantas mitologias pode ser possível em novas personagens que vão deixando de ter nomes gregos e passaram a ter nomes italianos ou espanhóis. Neste lugar onde os valores são humanos as personagens são agora homens, não são deuses. Neste lugar poético, o jogo, o prazer, a alegria, a confiança, a amizade, o amor, são os únicos valores. A cidade não tem de ser organizada. Não precisa de existir poder, o homem vive em toda a sua plenitude. Mas este lugar e esta sociedade são uma utopia e como utopia se apresentam. A história de MUITO BARULHO POR NADA adia a guerra a que Dom Pedro talvez vá voltar, passa-se longe de Aragão onde Dom Pedro também voltará e onde voltará a encontrar um reino com outros jogos, os jogos de poder, onde os amores devem ser menos felizes, com outra guarda ou outra polícia menos absurda que Abrunho e Varas e os outros guardas de Messina.

Quisémos que o espectáculo representasse esta idade de ouro, esta Arcádia, este mundo de utopia, de luxo, como muito simplesmente se costuma dizer, de côr, de alegria, de confiança. Um mundo diferente do nosso, o mundo que queríamos que fosse, uma ilha dos amores que pelo menos por breve tempo se podia dar por prémio a quem tivesse feito uma guerra onde ninguém “de renome” se tivesse perdido. Mas quisémos também contar o resto da história. Porque MUITO BARULHO POR NADA como todas as peças de Shakespeare é uma peça sobre a vida, sobre todos os assuntos. E é também uma peça sobre as relações dos homens entre si. É uma peça sobre a mentira, sobre as máscaras. Quando no mundo de MessinaD. João, o bastardo, por vingança, por inveja, por vontade de poder, por razões que trouxe de um mundo diferente deste mundo de utopia, com mentiras, com calúnias, inventa o mal e por breve tempo impede o amor, impede o casamento de Cláudio e Hero e cega a generosidade de Dom Pedro, está a falar-se dos erros dos homens, está a cruzar-se a ordem vertical do mundo com a ordem horizontal de Messina, está a inventar-se a culpa, o pecado. A mentira é o mal. MUITO BARULHO POR NADA transforma-se num enorme pesadelo. Mas frágil é o mal em MUITO BARULHO POR NADA. Basta que os palhaços Abrunho e Varas e os seus companheiros uma noite se convençam de que são guardas nocturnos para que a mentira caia por terra e se desfaça como frágil artifício, impotente contra a verdade luminosa dos grandes valores.

E MUITO BARULHO POR NADA é também a história de outro casamento, o casamento de Benedito e Beatriz. A história de mais mentiras. É mentira de Benedito e mentira de Beatriz que se não amem. A história do seu casamento é a história da queda dessa máscara. Mas é por mentiras dos que os amam que Benedito eBeatriz percebem amar-se. E aí a mentira é também o bem. É o teatro. Também no HAMLET os comediantes não são instrumento de verdade? A mentira é também a sedução. É a sedução porque esconde a verdade. Porque mais a faz desejar. A mentira é também um instrumento do amor. Mentir é próprio do Homem. “Os homens sempre mentiram”, diz a canção. Para o seu mal e para o seu bem. Não é uma enorme mentira, um enorme teatro – “a morte da bela Hero”, o que o bom Frei Francisco inventa para revelar o bem?

O protagonista da peça acaba por ser talvez aquele famoso “ladrão desfigurador” de que falam os guardas (a mentira) que “pede dinheiro emprestado em nome de Deus” e impede os homens de serem generosos e torna os homens duros de coração, e por isso, segundo o afinal sensato Abrunho, deveria ser preso. A mentira é condenada quando deixa de ser jogo, quando se torna em mal, quando esconde Deus. Quando afinal o homem cai no seu único e grande pecado, querer alterar a harmonia das coisas, quando quer ser outra coisa que não é, animal, rei ou Deus. Aí a plenitude da vida transforma-se em sonho mau.

MUITO BARULHO POR NADA, como todas as comédias, moraliza, é uma peça sobre o homem nas suas relações com os outros, sobre os seus eternos erros, sobre a sua cegueira. “Porque o Homem é uma coisa tonta, e esta é a minha conclusão”. Mas a sua enorme melancolia confunde-se com uma enorme paixão pelos homens, com um elogio da vida, com um triunfo da inteligência, do coração e dos sentidos. Mais difícil do que encontrar a genial construção da teia de relações e mentiras a todos os níveis e em todos os registos que constroem este conto poético sobre o ser humano, foi inventar as personagens que dele são protagonistas. Não é fácil construir personagens que são homens mas não são quotidianos nem banais, que não são iguais aos seres humanos que conhecemos, e que são antes modelos de comportamentos e de paixões humanas, com uma delicadeza e uma capacidade de usar a linguagem que já não conhecemos, personagens parecidos com deuses antigos de um mundo quase alegórico. São personagens de um lugar mágico, do reino da música onde os corpos não são desalmados, onde “as tripas dos carneiros têm o poder de arrebatar dos corpos as almas humanas”. O teatro de Shakespeare é poesia. Confiámos num texto e confiámos uns nos outros.

 

Luis Miguel Cintra

Imagens

fotografias de Paulo Cintra, Laura Castro Caldas e Pedro Soares ©