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Historial

83 - Tiestes

Ficha Técnica

 

Tiestes
de Séneca

 

Tradução Luís Lima Barreto com a colaboração de José Manuel Mendes e Luis Miguel Cintra 

Encenação Luis Miguel Cintra

Assistente de encenação Manuel Romano

Cenário e figurinos Cristina Reis

Assistentes para o cenário e figurinos Linda Gomes Teixeira e Luís Miguel Santos

Desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção

Director técnico Jorge Esteves

Construção e montagem de cenário Abel Duarte e João Paulo Araújo com a colaboração de Alexandre Araújo

Montagem de luzes Elias Macovela e Rui Seabra

Operação de luzes Rui Seabra

Guarda-roupa Emília Lima

Costureiras Maria da Conceição Santos e Maria do Sameiro Santos

Conservação do guarda-roupa Alice Madeira

Contra-regra Manuel Romano

Cartaz Cristina Reis

Secretária da Companhia Amália Barriga

Interpretação

Sombra de Tântalo, avô de Atreu e de Tiestes José Manuel Mendes

A Fúria Márcia Breia

Coro José Airosa

Atreu, irmão de Tiestes e rei de Argos Diogo Dória

Secretário David Almeida

Tiestes, irmão de Atreu Luis Miguel Cintra

Tântalo, primeiro filho de Tiestes João Lizardo

Plístenes, segundo filho de Tiestes Ruben Lopes

Terceiro filho de Tiestes João Vasco Santos

Mensageiro Milton Lopes

 

Colaboração de Nuno Vieira de Almeida

 

Lisboa: Teatro do Bairro Alto. 26/09 a 03/11/2002

34 representações

Estrutura subsidiada pelo Ministério da Cultura/IPAE, Instituto Português das Artes do Espectáculo

Apoio RDP Antena 1

Este Espectáculo

Pensei primeiro no Coro. Naquela solitária, doce e corajosa reflexão sobre o poder, o tempo, a fortuna, o prazer e a morte, e sobre a felicidade, que nos vai sendo negada pelo nosso mundo de hoje. Um discurso contra a guerra, contra todas as guerras, contra todos os poderes. O resto eram monstros ou figuras de teatro. Eram histórias que se contam, talvez mais exemplares que verdadeiras, de gente que deixou de ser humana. Eram feras numa arena de circo. Eram terríveis atrocidades, eram talvez a representação do nosso medo. Esse Coro, que nesta tragédia do fim do mundo não pode já ser colectivo, como na tragédia grega, que está tão sozinho que talvez até se oponha à voz da cidade, havia de ser no nosso espectáculo o protagonista, o seu sujeito. Foi pelas palavras que diz, pela sua estóica elegância, pela sua suicida postura, que nos apaixonámos quando, há um ano atrás, nas nossas pequenas vidas dominadas pelas selvagens leis da concorrência, caíram na televisão as torres de Nova Iorque e começou a ver-se que o mundo inteiro devorava os seus filhos e que agora tinha deixado de haver auroras e ocasos. Quando o inferno e a fuga dos deuses se deram tanto a ver.

No nosso espectáculo e perante o público não estaria nem um velho nem um sábio, estaria primeiro esse homem ainda jovem, a pensar, falando o seu elaborado pensamento como quem respira e como só o Zé Airosa sabe fazer, contra toda a retórica. Uma consciência. Consigo estaria um inocente, o mensageiro, representante do “povo rebelde a seus reis” e de todos aqueles que, de coração a tremer, estão “tocados por grande medo de que tudo se abata em fatal ruína” e a quem cabe a única palavra de esperança ou desespero, mas carregada de futuro: “Todo o mal será manifesto”. Esses dois estariam com o público. Ao fundo, lá longe, se representaria na escuridão o grotesco teatro do poder.

Com esta ideia partimos para a construção deste espaço. Pensávamos primeiro nas palavras. É de texto que este teatro se faz. De vozes. Chegámos a querer que os corpos dos tiranos mal se vissem. Queríamos dois registos de representação, duas linguagens, e daí nasceram dois espaços distintos: o espaço do Coro e o espaço dos heróis. Trabalhámos, a partir da estrutura dos grandes teatros romanos, na relação palco-plateia, para os tiranos, em vez de um lugar mais alto, criámos um fosso, mudámos a inclinação da bancada, queríamos estar perto da vertigem. Recuperámos a negro a ideia do pórtico majestático para a entrada dos trágicos, e da escuridão surgiu um lugar simbólico com espada, com as maçãs do mal e do bem e com o sangue. E o mundo nas pedras de um vulcão ou das ruínas. O espectáculo fugiu um pouco da sua ideia inicial. Não resistimos a que, tal como eventualmente acontecia na tragédia romana, a desumanização dos heróis se tornasse em grotesca magnificência com a teatral figura da diva e pouco divina Fúria, única e horrenda fêmea, mãe da raça, a presidir não só ao regresso do Fantasma e à derrota da culpa, como a todas as cenas de ódio e de vingança. O secretário, porta-voz do bom senso e do cinismo, igual a todos os pequenos e eternos funcionários que lambem as mãos ao poder, tornou-se num dos bobos de Velazquez e sobreviveu a todas as cenas, e os filhos de Tiestes, vestidos de igual ao pai, tornaram-se em série despersonalizada. E vestimos os reis só com os símbolos de sempre do poder, a púrpura do manto, a coroa, o ceptro, que é serpente como o demónio da Bíblia. E de cinzento quando falta o ouro. E o vermelho é sangue. E a luz, de que tanto se fala, o sol, que ora queima o mundo ora pára e se esconde em noite sem estrelas, em eterno eclipse, tornou-se em espectáculo também. Num fogo de artifício.

Fizemos, mesmo assim, um espectáculo difícil. Para além das dificuldades inerentes ao desuso da prática retórica, foi-nos também a nós difícil conceber estes monstros. Este texto é tão antigo como a era cristã, foi escrito há dois mil anos. As peças de Shakespeare só há menos de 400. Este Atreu e este Tiestes começam a ser modernos. Não são já, como na tragédia grega, apenas a representação de mitos. São aberrações teatrais, exemplares monstruosos da condição humana até à sua total desumanização e são símbolos do poder que continuamos a conhecer e até a guardar dentro de nós. Mas como perceber e dar corpo a estas personagens tão distantes que perante as cabeças, pés e mãos dos filhos mortos mais sentem ódio que desgosto? E que, tendo comido os filhos que lhes mataram, mais se horrorizam com a destruição da sua própria dignidade que com o assassinato? Como se concebem cabeças assim? Que sentimentos são estes? Que era há tantos anos a relação pai-filho? Qual era o conceito de família? Que importância tinha a linhagem? Como se pode conceber que uma personagem como Atreu se resgate pelo mal? Que leva Tiestes a regressar para o trono de Argos que já reconheceu como a boca do inimigo? A nós, cabeças já cristãs, foi-nos difícil imaginar estes seres, que essa gente não era ainda exactamente como nós. Mas este é o passado da nossa Europa. E pode figurar o pavor de um seu futuro. E daqui nascemos. E este texto com isso nos confronta. O teatro pode ter isso de bom. Obriga na carne a alguma consciência da História.

Este é um texto distante. Levar ao palco um texto destes é um risco. É um teatro denso, é um teatro lento. Que resiste ao consumo. Sem acção. É um teatro do pensamento. Nada já nas nossas vidas é assim. E mais distante para todos é este texto ainda por mais razões. Ao contrário dos Romanos, pouco sabemos já destas histórias gregas. Quem sabe ainda a história da descendência de Tântalo? Quem se lembra ainda da maldição que pesou sobre a casa dos Átridas? Quem sabe ainda a história sangrenta dos filhos de Atreu? E que, mais tarde, Tiestes teve de sua própria filha um outro filho, Egisto, que vingou o seu pai? Esta mitologia esqueceu-se. E no entanto muito do posterior teatro nasceu daqui. Com estas histórias se fez a nossa civilização. Há-de o nosso tempo recusar essa memória? Hão-de levar-nos a mal que um espectáculo nos exija algum esforço e nos confronte com a nossa própria incultura e nos mostre por momentos um pouco de outra barbárie, a da nossa recente educação? Não será nosso dever de estrutura financiada pelo Estado, mais do que a produção de luxo, ou lixo para novos ricos, trabalhar de alguma forma para algum desconforto e algum progresso cultural? A quem mais se pedirá que ouse montar um texto destes?

E nem tudo neste texto é distante. Nalguma coisa nos encontramos profundamente e contra a maré com este teatro. Na sua fundamental natureza política. Este texto antigo, tão distante da vida política que diariamente nos sufoca, pensa a cidade. A sociedade humana. Pensa nos homens como cidadãos. Pede-lhes responsabilidade. Ainda faz perguntas como: “que é ser rei?” ou “o poder é sempre o mal?”. Põe-nos perante a morte e aí expõe dilemas que são ou deviam ser ainda espantosamente nossos. A sabedoria ou o trono? O anonimato ou o poder? A pobreza ou o dinheiro? A guerra ou a paz? A felicidade individual ou o caminho do mundo? Fugiram os deuses no nosso tempo como no tempo de Séneca. Somos vítimas e espectadores da podridão. E nesse tempo como agora, quem nos explica a vida? Em que acreditamos? Que é que ainda faz algum sentido? Vai morrer o mundo? Quem nos castigará? Diante do caos, pergunta o Coro e perguntamos nós: “Terá chegado para nós o fim dos tempos?”. “Ai, míseros de nós, em dura sorte concebidos, que banimos o sol ou o perdemos!” Seremos capazes, com Heiner Müller, de amar a catástrofe? Este espectáculo quis-se assim. Brutal. Antigo.

 

Luis Miguel Cintra

 

Nota O nosso trabalho começou pela elaboração de uma nova tradução. Confiando no nosso pouco conhecimento do latim, correndo o risco de alguma incorrecção na fidelidade ao texto original e ainda que respeitando a autoridade científica da tradução portuguesa, já publicada, de Segurado e Campos, mais atentos à prosódia e a um sintetismo indispensável à dicção dos actores, estabelecemos novo texto em português. Desse paciente e dedicado trabalho nasceu, como noutros trabalhos anteriores de tradução, um mais profundo conhecimento da peça que tínhamos em mãos. A concisão e a elegância do texto latino, isso a nossa língua não consegue dar.

Imagens

fotografias de Paulo Cintra, Laura Castro Caldas e Cristina Reis ©


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