Pesquisar

Historial

46 - Apanhados no Divã

Ficha Técnica

 

Apanhados no Divã
de Joe Orton

 

Nós é que somos, com certeza, todos loucos, e não aqueles que nós pensamos que são. The Revenger’s Tragedy 

 

WHAT THE BUTLER SAW, cuja tradução literal seria: "O que o mordomo viu", é uma expressão idiomática que significa aproximadamente "coisas indecentes feitas às escondidas e apanhadas em flagrante". É conotada com situações da comédia policial e de boulevard onde normalmente o mordomo é quem desvenda o enredo. Além disso é o nome de velhos jogos de bonecos mecânicos que existiam por exemplo nos recintos de diversões de estâncias de veraneio como Brighton onde deitando uma moeda e espreitando por um buraco se viam os bonecos a representar cenas "picantes". A tradução literal do título da peça é impossível. Por isso optámos por APANHADOS NO DIVÃ.

 

Tradução José Camões e Luis Miguel Cintra

Encenação Luis Miguel Cintra

Colaboração para a dramaturgia Eduarda Dionísio

Cenário e figurinos Cristina Reis

Assistente para cenário e figurinos Linda Gomes Teixeira

Montagem Fernando Correia

Ajudante de montagem João Paulo Alves

Guarda-roupa Emília Lima

Costureiras Aline Seco, Ofélia Lima, Piedade Duarte e Teresa Cavaca.

Iluminação Ricardo Madeira

Operação de luz e som Ricardo Madeira

Contra-regra Alfredo Martinho

Interpretação

Dr. Prentice Luís Lima Barreto ou Luis Miguel Cintra

Geraldine Barclay Luísa Cruz

Senhora Prentice Márcia Breia

Nicholas Beckett Adriano Luz

Dr. Rance Luis Miguel Cintra ou Rogério Vieira

Sargento Match António Fonseca ou Gilberto Gonçalves

 

Colaboração de Robin Jones, Gastão Cruz, Maria Emllia Correia, Jorge Lima Barreto, Elsa  Ramsey e RTP

 

Lisboa: Teatro do Bairro Alto. Estreia: 17/07/1992

 

Digressão: Braga (Teatro Circo), Coimbra (Teatro Gil Vicente), Covilhã, Ovar e Viseu

78 representações

Companhia subsidiada pela Secretaria de Estado da Cultura

Apoio RDP Antena 1, Expresso e Jornal de Letras

Este Espectáculo

Representamos neste momento WHAT THE BUTLER SAW a que, depois de muita hesitação e tentando em vão encontrar uma boa tradução no nosso pesado português para a múltipla ironia do título inglês, acabámos por chamar APANHADOS NO DIVÃ, como uma pausa na nossa programação. Por razões simples: o público cansou-se de nos ver falar a sério da vida e nós estamos cansados de uma luta que passou de Beckett a duàs peças de Heiner Müller com alguns dos textos teatrais mais densos que esta segunda metade do século produziu. Quisemos um momento de reconciliação, quisemos um divertimento, uma comédia. Para ganhar forças no prazer que nos podem vir a dar novos embates com textos que fazem sofrer e que nos fazem progredir nesta eterna tentativa de perceber o mundo, o caminho que as coisas levam, as pessoas. Pegámos numa comédia, género por que nos apaixonámos para sempre e a que sempre voltámos desde o ANFITRIÃO, com O MISANTROPO, Marivaux, Plauto, Dario Fo, O LABIRINTO DE CRETA, A MULHER DO CAMPO, SIMPATIA, por aí fora. Porque nos faz rir, sim, mas sobretudo porque nos faz viver com os outros, obriga à cumplicidade, põe o problema da organização social, da descoberta de um ponto de vista colectivo sobre regras da vida.

Dir-se-ia que, para isso, com Orton escolhemos mal. Orton queria um teatro violento. Admiro Orton como um revoltado, um mártir da sua vontade de tomar em escândalo a sua própria vida em total oposição às regras de repressão moral da sociedade em que viveu, quase um santo provocador. Para Orton a sociedade em que vivia era pequena demais para a verdadeira dimensão da vida. Para Orton, a sociedade britânica era uma sociedade de "cus-apertados". Assim pensámos muitos de nós nessa famosa geração de 60, cada um na sua terra. No primeiro filme em que representei, por exemplo, também ainda nos anos 60, os SAPATOS DO DEFUNTO, o seu realizador João César Monteiro dizia "Este país, senhores, é um poço onde se cai, um cu de onde se não sai". Só que não sei se tantos agora ainda pensarão como nós. A sociedade redimensionou-se. E dimensionou também os desejos das pessoas. Tirou-lhes tamanho. Não sei agora onde estão os gritos de revolta. Sei onde está o desespero quotidiano, o suicídio e a doença, a morte, como únicos recursos para existir. A violência agora já é outra.

Mas Orton queria chocar. Quando Sir Ralph Richardson representou WHAT THE BUTLER SAW pela primeira vez arrependeu-se. A peça foi um fracasso por ser escandalosa, a reputação de Sir Ralph saiu por baixo. Agora a peça acima de tudo diverte. Agora WHAT THE BUTLER SAW é êxito no West End de Londres. Como tudo. Almodóvar era um marginal, não sabe agora o que fazer ao dinheiro. (Fassbinder acho que conseguiu ser asceta até ao fim). WHAT THE BUTLER SAW deve ter perdido já a carga de violência que quando foi escrita tinha. Quem reparará ainda no divertidíssimo e saudável desrespeito com que faz o abastardamento de uma quantidade de referências literárias cultas? Os jogos fálicos, a descoberta da caixinha, as trocas de identidade e de sexo, o esquema da descoberta dos gémeos, a entrada do Deus ex-machina, etc., tudo lá está como em Aristófanes, Plauto, Eurípedes, Shakespeare, Goldoni, Oscar Wilde. Quem reconhecerá aqui a reelaboração da linguagem sofisticada da comédia da Restauração? Quem reconhecerá a entrada da Lady Macbeth? Quantos reconhecerão sequer em Portugal as violências feitas às regras do teatro de boulevard e da farsa, do velho teatro da burguesia, que a gente mais nova nunca viu? Orton quis inverter o boulevard, como, aliás, Dario Fo, mas com uma violência intrínseca, uma complexidade e uma sofisticação que Dario Fo por certo não conseguiu. A reconciliação final de WHAT THE BUTLER SAW, ao contrário do boulevard, assenta sobre valores morais profundamente contrários aos da sociedade em que Orton escreveu a peça, mas que são já menos contrários aos da sociedade que hoje é público da Cornucópia. A reconciliação com o público não foi possível no dia da estreia. Orton talvez não a quisesse, aliás. Mas hoje escolhemos Orton para um espectáculo de reconciliação. Hoje essa reconciliação, estou convencido, passa a ser possível para o público da Cornucópia para quem, creio, as regras de bom comportamento não são exactamente a sua razão de ser. No entanto, longe do público da nossa companhia, e oxalá esse público aqui chegasse, ou a gente conseguisse a ele chegar, a tendência assustadora que na Europa sentimos para certo retorno a uma forte rigidez moral e para um saudosismo da estrutura familiar tradicional talvez ainda estranhamente recuperasse alguma da carga de violência com que Orton escreveu a peça, o que talvez ainda o fizesse rir de prazer.

A Cornucópia, fazendo agora WHAT THE BUTLER SAW para se divertir estará então a trair o nosso iconoclasta? Julgo que não. É que a peça de Orton além de um saudável exercício de humor conserva ainda a sua violência positiva porque vai mais longe que a paródia da farsa e do boulevard e está, no fundo, talvez mais perto de certas comédias de Shakespeare. Como em certas comédias de Shakespeare, menos do que da desordem irracional e cómica de uma sociedade racional características do boulevard, trata-se na peça de Orton de uma sociedade irracional que a desordem cómica põe a nu e ataca, e a reorganização social final e a criação de uma nova realidade que corresponde a alguma coisa de impossível mas desejável, utópica. Como diz Northrop Frye, o crítico que melhor entendeu a comédia como género: "O fim festivo da comédia representa o que o público normalmente considera uma solução desejável para a sua acção. 0 que significa que a própria acção contém características indesejáveis." Ora em WHAT THE BUTLER SAW a solução desejável no interior da sociedade da peça (aquela família, o Dr. Rance, o Polícia) é a criação de uma nova realidade em que nenhuma regra moral conta, o incesto até é admitido e talvez traga felicidade, a hipocrísia não é necessária, o polícia não precisa de ter autoridade, um inspector de Saúde tem sucesso literário, a loucura não existe. A desordem irracional da sociedade irracional libertou pelo non-sense, pelo disparate, criou uma explosão de vida. Mais nada. Mas coisa rara. Nesse processo que conduz a esse fim, encontramos talvez a razão principaI do nosso enorme amor por um texto como este e ainda a sua razão de ser: quando da comédia se passa ao cómico. Quando o grotesco irrompe e torna toda a peça num saudável momento lúdico. Em puro jogo com a língua, com todas as linguagens, com a vida. Em subversão.

Só que aos vários falsos desenlaces que Orton deu à peça ainda lhe acrescentou outro fim. E esse fim é azedo. É azedo quando se percebe que, depois do que se passou, as personagens nada aprenderam, que a sociedade repressiva e irracional em que vivem é mais forte que a força da liberdade que uma peça de teatro lhes permitiu, quando as personagens passam a ser verdadeiras, quando Prentice chama "pecadilhos" ao que se passou, quando se adivinha que o polícia irá ser condecorado por ter encontrado as partes da estátua que faltavam e vai contar tudo à imprensa para ganhar uns tostões e o "Daily Mirror" ganhar milhões com a história dos gémeos do Hotel Central, o Dr. Rance vai publicar o seu livro moralista à custa de Freud e ganhar outros tostões para a editora ganhar milhões, a Geraldine vai passar a ser uma filha de família e casar bem, o Dr. Prentice vai pagar uma caução para Nick não ser preso por ter incomodado as meninas de um colégio e Nick vai tirar um curso de informática e vai-se tornar gestor, a Senhora Prentice vai-se tornar numa dona de casa feliz por ter recuperado os seus filhos e vai tornar-se rapidamente avó, a estátua de Churchill, para alegria do mundo, vai voltar a ter charuto. Tal qual como, entre nós, a verdade nua no colo de Eça de Queirós, voltará, ao que parece, a ter todos os seus dedos. A alegria em nome da qual fizemos a peça desaparecerá quando os personagens se vestirem para encarar o mundo. Quando a hipocrisia voltar. Mas também com estas coisas nos podemos divertir. Ou não? Sem hipocrisia. Hipocritamente. Do grego actor.

 

Luis Miguel Cintra

Imagens

fotografias de Paulo Cintra e Laura Castro Caldas ©