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Historial

81 - O Colar

Ficha Técnica

 

O Colar
de Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Encenação Luis Miguel Cintra

Assistente de encenação Manuel Romano

Cenário e figurinos Cristina Reis

Assistentes para o cenário e figurinos Linda Gomes Teixeira e Luís Miguel Santos

Música Carlos Marecos

Desenho de luzes Daniel Worm d'Assumpção

Director de montagem Jorge Esteves

Construção de cenário Abel Duarte e João Paulo Araújo com a colaboração de Alexandre Araújo

Montagem de cenário Abel Duarte e João Paulo Araújo e equipa do T.N.S.J. no Porto

Montagem de luzes Elias Macovela e equipa do T.N.S.J. no Porto

Guarda-roupa Emília Lima

Costureiras Maria Barradas, Maria Conceição Santos, Maria Helena Moreira e Maria do Sameiro Santos

Alfaiate José Carlos Almeida

Conservação do guarda-roupa Alice Madeira e equipa do T.N.S.J. no Porto

Contra-regra Manuel Romano e equipa do T.N.S.J. no Porto

Som Luís Lopes e equipa do T.N.S.J. no Porto

Vídeo Ricardo Rezende

Professora de voz Maria do Rosário Coelho

Cartaz Cristina Reis

Secretária da Companhia Amália Barriga

Interpretação (por ordem de entrada em cena)

Veneziano Luis Miguel Cintra

Vanina Rita Durão

Bonina Solange F.

Giovanna Sofia Marques

Geraldina Márcia Breia

Tutor José Manuel Mendes

Bruno Dom Petro Dikota

Condessa Zetti Glicínia Quartin

Comendador Cândido Ferreira

Giovanni Miguel Melo

Juliano Roberto Candeias

Pietro Alvisi João Lizardo

Lord Byron Luis Miguel Cintra

 

Músicos Fernando Guiomar e Vasco Abranches

 

Colaboração de Gastão Cruz, João  Barrento, Maria do Rosário Coelho, Nuno Vieira de Almeida e Raquel Neto (Livraria Buchholz)

 

Porto: Teatro Nacional de S. João. 14/02 a 03/03/2002

16 representações

 

Lisboa: Teatro do Bairro Alto. 14/03 a 21/04/2002

34 representações

Uma co-produção Teatro Nacional de S. João/Teatro da Cornucópia

Estrutura subsidiada pelo Ministério da Cultura/IPAE, Instituto Português das Artes do Espectáculo

Este Espectáculo

Um dia, há já mais de três anos, quando, em homenagem à Sophia, preparávamos o espectáculo AUSTEROS SINAIS, disse-nos ela que estava a escrever uma peça de teatro: O COLAR. Deu-nos então a ler o primeiro acto. Perguntava se gostávamos. Pedimos-lhe que acabasse porque a queríamos representar. Foi aí que surgiu a ideia deste espectáculo. Daí para a frente todos os anos programámos O COLAR. Esperámos o tempo que a Sophia quis para acabar a peça. Houve várias versões do segundo acto. Finalmente chegou esta peça em três estranhos e diferentes actos. Que com grande alegria levamos à cena. E com o temor de quem lhe parece ter entre mãos uma coisa muito frágil e muito preciosa. Muito desejada e muito amada.

Não sei se O COLAR é mesmo uma peça de teatro. Tanta é a leveza, tão transparentes e fugidias as personagens, tão frágil a estrutura dramática, tão previsível o esboço de intriga, que nada do pesado aparato do teatro parece que chega a estar ali. Mas está a poesia de Sophia, os seus temas, a sua limpidez, o seu saber. A poesia aqui está a brincar, resolveu mascarar-se. E fingiu que era teatro. Talvez sem razão. Por simples prazer. Por pura alegria. Alegria de viver. E o teatro voltou, como antigamente, a ser poesia. Deixou por um instante de ser prosa, de pôr tudo por extenso, como tanto do teatro que herdámos e continuamos a fazer. Aqui tudo existe ao ser apenas aflorado. Em O COLAR a poesia convoca farrapos de teatro, ligeiras evocações da comédia e da ópera, põe no centro do palco uma jovem mulher ou uma boneca com nome italiano de alguma heroína de ficção, Vanina, que apostaríamos ser dupla, ou espelho, ou máscara da própria Sophia neste jogo, nesta breve fantasia, e fá-la conviver com personagens que tanto saem das memórias de infância, como da commedia dell’arte, como dos teatros de marionetas, como de todas as convenções, e fala da vida. Da vida toda, ao de leve, como se de nada se tratasse, com aquela elegância que só sabe ter a muita arte ou uma sabedoria já de muita vida feita.

Parece, n’O COLAR, que estamos de facto num quarto de brinquedos ou numa casa de bonecas. E sentimos a liberdade e a alegria que só as crianças conseguem a brincar. Num prólogo à antiga, a personagem de um mestre de cerimónias-apresentador, diz um poema já incluído em O Búzio de Cós que nos situa numa Veneza senhora do mar, lugar de toda a beleza, de toda a luz, de todos os amores e todas as artes, e de todos os comércios, e do dinheiro e também da tirania. Esta Veneza é o complexo mundo inteiro, mas em festa. Com lua à meia-noite e sol ao meio dia. E é este palco. Desarrumado como a vida, ao sabor do que acontece. Passamos para um quarto de Vanina que é uma janela, um espelho, uma cama para chorar e uma mesa para escrever. Saltamos para um palácio, um terraço, uma mesa de jantar, e um parque e uma floresta. Reconhecemos a brincar os lugares da poesia de Sophia. Porque Vanina vai passando por aí num pequeno percurso de boneca, ou bailarina, que esconde uma enorme aprendizagem. Até a Grécia é nomeada e como em vários poemas de Sophia, chega o poeta e o poeta é Byron. Sem quase se dar por isso, o que se joga neste pequeno teatro são os mesmos grandes temas de toda a sua poesia. Um pouco no tom de alguns dos contos.

O COLAR abre sobre a alegria de viver. Tudo é esperança, a luz, as coisas, as pessoas. Vanina está apaixonada. Porque assim começa a vida. E do dia pleno se passa para a noite. “A vida é difícil, Vanina”, é o que lhe repetem em tons diferentes as pessoas que encontra. Vanina, ao longo da pequena peça, como quem diz ao longo da vida, vai aprender que é verdade. Chora. Aprende que a vida não é um conto de fadas, aprende a dificuldade, o que é a liberdade limitada, aprende o que é viver com os outros. Conhece a decepção. Percebe que nem sempre a arte, a verdade e a justiça se encontram. Mas lava-se na natureza, na fonte dos pastores. E decide, inventa-se. E aprende a amar. Virá um dia a conhecer também a melancolia e a perceber o que já sabem dois sábios que encontra, o poeta Byron e uma senhora Condessa, talvez uma Vanina já velha, ambos com um saber de muitas experiências feito: que a vida passa e a juventude é um instante que tem de durar toda a vida. E a gostar de coisas tão grandes ou tão pequenas mas tão civilizadas ao longo de muito tempo, como um copo de champanhe com pêssego numa noite quente em Itália, no Verão.

O COLAR é uma peça, ou um poema, tanto faz, sobre a perda da inocência, sim, mas contra o cinismo. E por isso, quase sem nos darmos conta, com a extrema delicadeza ou o pudor que só os grandes sabem ter, uma peça para o nosso tempo. A favor da esperança. Nenhum ser humano é mau nesta pequena história. Todos são diferentes, todos são como são e tão humanos como toda a humanidade. Mas Vanina sente a ferida de uma vida mais pequena que aquela que os homens mereciam. Perante a decepção, a desilusão, ela não põe “sobre o seu deslumbramento o selo do esquecimento e da indiferença”. Aprende a solidão como lugar de dignidade e aprende a mais amar a vida nas suas contradições.

É difícil dar corpo a uma peça assim. A cada instante se corre o perigo de com um elemento de cenário a mais, um fato menos certo, uma luz mais grosseira, um movimento acessório, uma inflexão ao lado, se estragar a suprema elegância de tanto saber representar com um leve traço, com tão poucas palavras, sem nenhuma violência que não seja a da extrema clareza a que nos desabituámos num mundo já cego e surdo de tanta imagem e tanta letra, de tanto discurso especulativo. Este teatro tem outro ritmo. Teatro assim ninguém faz. É verdade, neste momento, infelizmente, não passaria pela cabeça de mais ninguém. Aqui trata-se de voltar a uma pureza original que é o reencontro com a alegria. Bem o desejamos e neste espectáculo o tentámos. Mas isso, para além da Sophia, quem sabe fazer?

Este espectáculo exigiu de nós, como poucos, uma efectiva responsabilidade. A mesma com que Sophia glosou, recriando mais que traduzindo, o poema de Byron de que muito gostava e que escolheu para fechar a peça. A mesma liberdade com que traduziu o Hamlet e Muito Barulho por Nada que representámos. O Colar é um texto que nos desafia. É um texto de quem gosta muito de teatro, que muitas vezes, o sonhou. Mas não é o texto de um dramaturgo. É o texto de um poeta que não sabe, nem quer, prever a sua encenação. Esse trabalho deixa-o a nós, à liberdade de quem muito o ame e por esse amor se responsabilize. O que constrói este texto não é nenhuma carpintaria, é o prazer das palavras. Às vezes muitas, às vezes poucas, conforme as cenas. Com um ritmo que imagina cenários, vestidos, corpos, o movimento e a voz, mas que os deixa disponíveis também à imaginação, à decisão, à criação dos outros. À sua liberdade. E deles esperando tudo. Ainda bem. Mas este espectáculo não esgota a peça de Sophia. Temo que a limite. Nas palavras de Sophia cabe o mundo, todas as coisas e toda a vida. Neste espectáculo cabe apenas o enorme entusiasmo com que desde sempre as lemos. E com que delas nos apropriamos para melhor viver. Temo que a profunda melancolia que o atravessa e que no delicado amor da peça descobrimos, seja nosso. De Sophia recebemos a alegria. Mesmo se com ela, num dos seus poemas mais recentes, por certo também perguntamos “como viver de novo a alegria una / de ter sido nova que falhei”.

 

“Queremos ir com o vento com o perigo

Queremos a injustiça do castigo

Somos nós que a nós mesmos nos matamos”

 

Luis Miguel Cintra

Imagens

fotografias de Ana Pereira e Carlos Marecos ©