Pesquisar

Historial

43 - Até Que Como O Quê Quase

Ficha Técnica

 

Até Que Como O Quê Quase
de Samuel Beckett

 

Tradução e encenação Luis Miguel Cintra

Cenário e figurinos Cristina Reis

Assistente para cenário e figurinos Linda Gomes Teixeira

Montagem Fernando Correia

Ajudantes de montagem Fernando Santos Correia e Mário Correia

Guarda-roupa Emília Lima

Costureiras Aline Sêco e Piedade Duarte

Adereços Alfredo Martinho

Iluminação Luis Miguel Cintra e Ricardo Madeira

Operação de luz e som Ricardo Madeira

Gravação da banda sonora Vasco Pimentel

Contra-regra Alfredo Martinho

Professora de violino Rita Mendes

Interpretação

Adriano Luz, António Fonseca, Gilberto Gonçalves, Luísa Cruz, Luís Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, Márcia Breia, Miguel Guilherme e Rogério Vieira

 

AQUELA VEZ

O ouvinte Luis Miguel Cintra

 

FRAGMENTO PARA TEATRO I

A Luís Lima Barreto

B Rogério Vieira

 

FRAGMENTO PARA TEATRO II

A Miguel Guilherme

B Adriano Luz

C António Fonseca

 

SOLO

O recitante Luis Miguel Cintra

 

O QUÊ ONDE

Bam António Fonseca

Bem Luísa Cruz

Bim Márcia Breia

Bom Gilberto Gonçalves

Voz de Bam António Fonseca

 

Nota: Nalguns espectáculos Luís Lima Barreto foi substituído por Luis Miguel Cintra no FRAGMENTO PARA TEATRO I.

Lisboa: Teatro do Bairro Alto. Estreia: 20/07/1991

48 representações

Companhia subsidiada pela Secretaria de Estado da Cultura

Este Espectáculo

“Até que como o quê quase não há outros assuntos. Nunca houve outros assuntos. Sempre houve um único assunto. Os mortos e os que se foram a vida que eles lá puseram.” No teatro também. De espectáculo em espectáculo a tentarmos representar a vida. A falar do teatro como seu espelho, como seu sinal, como sua metáfora. De espectáculo em espectáculo sempre a falar disso. A reduzir a vida a uma casa escura, a luz às lâmpadas dos projectores, o espaço do mundo inteiro a poucos metros, todos os homens a alguns actores. Tudo só para perceber a vida, o único assunto.

Creio que percebi isso pela primeira vez, ou terá sido outra vez?, em 68 quando nesse ano capital da vida vi com estes que a terra há-de comer e com a maior alegria Winnie-Glicínia Quartin enterrada no seu monte de areia a cantar “A Viúva Alegre” e Willie-Ruy Furtado de costas a ler o jornal. Eram os DIAS FELIZES e Beckett pela primeira vez. Ou teria sido À ESPERA DE GODOT? Vinte e três anos depois sou fiel ao que aí percebi. Que o teatro é, tem de ser ou não é, igual à ilusão de óptica do nosso cartaz: uma vela apagada que por ilusão se acende como a vela acesa do nosso lado, que do infinitamente pequeno surge a imagem do infinitamente grande, que da imagem da morte surgirá a representação da vida. Continuo a acreditar que o teatro é assim. Mas muitas vezes adiámos o confronto com os textos que melhor falam disso, com os textos de Beckett. Só agora perdemos o medo de falhar porque agora sabemos que se falharmos tanto faz. É talvez a melhor maneira de matar o tempo, sempre pouco. Construir uma, muitas ilusões.

Imagens. Imagens que mal se vêem. Encenar Beckett é construir imagens? Na CATÁSTROFE que não resistimos a incluir já no espectáculo CÉU DE PAPEL falava-se disso. E já nessa altura nos interrogámos sobre isso. Se tentarmos aprender com o próprio Beckett, é isso que a personagem Encenador dessa peça tenta fazer. Põe no actor um chapéu, tira-lhe o chapéu, levanta-lhe as mãos, as calças do fato, põe-lhe mais luz ou menos em cima, levanta ou baixa-lhe a cabeça. A Voz de O QUÊ ONDE, voz também de um encenador ou de um narrador de, pelo menos, um eu qualquer, também tenta construir imagens. Construir imagens, sem dúvida. A acção dramática de todas as peças ou dessa única voz, concerteza ausente, que todas elas atravessa e que através das cinco peças que escolhemos esperamos que surja, é a luta para conseguir uma imagem, a luta do pensamento, das palavras, com os olhos. E por isso mesmo ao encenar Beckett não é possível construir, tentar construir outras imagens que não aquelas que as palavras já escritas ou pensadas escolheram como amigas ou inimigas. São essas e não outras. Mas é tarefa vã porque mesmo essas não são nunca as mesmas que construímos. Que imagem construiu o Encenador de catástrofe quando finalmente apagou todas as luzes e deixou em silêncio só a cara do actor? Que imagem construiu a Voz do altifalante de O QUÊ ONDE onde quando finalmente apagou a luz senão a sua própria presença? Som. Ou silêncio. Ou “escuro total outra vez”. As únicas imagens são as imagens ou as palavras que por ilusão de óptica o público vê ou ouve na cara de um corpo que tem à frente e por ilusão de óptica já confundiu consigo e já tornou em fantasma. Ou que viu e ouviu na pura escuridão. Na morte. Nunca as que a encenação construiu. Encenar Beckett (ou será assim tudo?) é concerteza construir as suas imagens mas é uma eterna e falhada tentativa. Porque o que se encena é afinal palavras ou silêncio. Talvez que encená-lo seja primeiro traduzi-lo. Talvez se encene o eco que as palavras ou o silêncio podem ter em corpos vivos de actores. Para conseguir que um eco, um fantasma, surja noutras cabeças, as dos ouvintes, com as suas memórias. Quando muito só isso.

Imaginamos nós que a vida está dentro da cabeça. Num crâneo. Alí se passa tudo o que neste teatro se encena. E como se encena isso? Mas não será afinal isso que se passa no teatro todo?

É uma escrita radical, esta. Sobre o mundo inteiro, toda a vida, falando apenas de um eu ou de nada, movendo-se apenas num crâneo, num vazio, encenando-se só a si própria, não falando de nada para poder falar de tudo. A vida também é assim. E afinal o que é? O único assunto. Na tentativa de criação de uma sua imagem nos movemos a vida inteira. Como o teatro.

Pela mesma ilusão de óptica o teatro de Beckett fala também da encenação teatral como da encenação do eu. Aí fomos buscar o único vector para o nosso trabalho. Uma câmara escura, um espaço zero, um processo para sucessivas e cada vez mais pequenas e mais falhadas tentativas de ilusão. Até que como em BREATH só exista respirar. Ou que até a respiração se apague. Foi-se. Como acontece a toda a gente.

O nosso espectáculo foi contaminado pela violência deste processo interior onde até o humor é mais um processo de insatisfação. O minúsculo interrogatório - tortura sempre repetido de O QUÊ ONDE, imagem talvez da própria vida ou do próprio processo de criação é também a imagem do trabalho do espectáculo. Sempre em recomeço, em dúvida, em vã reconstrução. Como a vida. Sabemos como um espectáculo assim pode ser ou é provocatório num tempo ao que parece, para tantos, de vacas gordas, cego. Acreditem, também o é para nós. Mas não gostamos de viver por acaso os nossos dois biliões e meio de segundos, se tanto. “Custa a crer. Tão poucos”. “Entenda quem puder”.

 

Luis Miguel Cintra

Imagens

fotografias de Paulo Cintra e Laura Castro Caldas ©