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DANÇA DA MORTE / DANÇA DE LA MUERTE

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A música

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Ficha técnica

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Fotografias

A música

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“… y al cabo viene la Muerte

que no nos dexa ninguno”.

(J. de la Encina, Todos los bienes del mundo)

 

A obra musical mais antiga que conservamos sobre o tema da morte - Ad mortem Festinamus - está contida no Llibre Vermell de Montserrat, uma colecção de dez danças que os monges do mosteiro utilizavam seguramente para uso dos peregrinos. No final do século XV, esta melodia foi copiada num fresco do Mosteiro de São Francisco em Morella, e aparece também em dois manuscritos alemães do início do século XV constituindo, como indicam MC. Gomez e F. Massip, uma primeira versão oficial europeia do que virá a ser nos séculos seguintes a popular Dança da Morte.
As descrições dos Triunfos da Morte, festividades macabras e celebrações similares realizadas entre os séculos XIV e XVI, mostram-nos o papel que a música tinha nestas manifestações cénicas, bem como os instrumentos usados para acompanhar o canto e a dança.

Os especialistas afirmam que até finais do século XV, a dança da morte que é já apresentada por pares, é a popular mourisca relacionada com os matachines dos séculos XVI e XVII, que ainda se dançam no México. Os livros de alaúde são também fontes musicais que contêm colecções de danças, bem como os cancioneiros espanhóis, que incluem textos como o de Juan de la Encina que abre este texto e que se referem à morte.

Investigar temas musicais, canções, danças e ritmos que possam ter acompanhado estas festividades macabras, que delas derivaram, ou que tiveram alguma relação temática, coreografica ou musical, e estabelecer assim uma base musicológica sobre a qual construir a música e os sons deste espectáculo constituiu um ponto de partida para este novo projecto.

Nesta procura, trabalhámos músicas que vão desde o Llibre Vermell à Veneza do século XVII, com os matachines convertidos em personagens da Commedia dell'Arte, uma tradição que se estende à cena barroca espanhola. Ouvimos canções populares, ritmos de danças que ainda existem, danças de crianças mortas, e estudámos relações entre matachines, morescas e danças de bobos. Procurámos nos cancioneiros textos castelhanos que contêm desde a alusão directa à morte até à citação ou à paródia do Ofício de Defuntos.

Com tudo isso alargaram-se consideravelmente os caminhos possíveis e estabelecer limites foi o trabalho que se seguiu. A citação do famoso Ad mortem Festinamus do Llibre Vermell parecia necessária, mas impunha-se afinar a música que melhor corresponde a cada personagem chamada a esta Dança Macabra.

As dançarinas e o salmista da entrada iniciam a cerimónia entoando a Antífona e Salmo 114 com que começam as Vésperas do Ofício de Defuntos: Placebo Domino in regione vivorum. As carpideiras, contratadas para chorar os mortos, eram precisamente chamadas Placebos (e este termo passou mais tarde à terminologia médica, para denominar o efeito de fingimento). As nossas Placebos dançam sobre um ritmo similar à popular dança de espadas da Cantábria e norte da península.

O fio condutor dos personagens eclesiásticos provem do canto-chão do Ofício e da Missa pro Defunctis, ao qual juntámos citações polifónicas de Antoine Brumel (o primeiro Dies Irae em polifonia conservado e a Comunio, da sua Missa de Requiem), Ockeghem (Introito Missa pro Defunctis), Josquin Desprez (De profundis), e Cristóbal de Morales (Invitatório del Ofício de Maitines de Difuntos).

O rei dança aos compassos de Mortal tristura me dieron de Juan de la Encina, que contém o motivo do Circumdederunt me doloris mortis que os dançarinos entoaram na entrada. O português Pedro de Escobar e algum outro anónimo do Cancioneiro de Elvas pareciam obrigatórias nesta citação hispano-portuguesa, em que a Danza de la Muerte hispana se combina com textos das Barcas de Gil Vicente, que por sua vez, nos proporciona dois vilancetes castelhanos citados directamente na Barca da Glória: Nunca fue pena mayor e Lo que queda es lo seguro.

Judeu e Alfaqui dançam com músicas construídas sobre melodias tradicionais. Ao mais "refinado" dos personagens civis, o Corregedor, foi atribuída a música de Guillaume Dufay, que não poderia faltar nesta viagem. O Daca bailemos de Juan de la Encina reflecte bem o carácter do lavrador, como Pásame por Dios barquero de Escobar o da esposa por fim enamorada. O embarque definitivo dos personagens faz-se ao som de dança De Doot (A Morte), que ainda que provenha do livro de alaúde Thysius, tem uma semelhança suspeita com os famosos Matachines ou Bobos do tratado de dança de Arbeau. Finalmente, de Itália – ainda que com um certo carácter hispânico – chega-nos a música da partida: a Calata alla spagnola de Joan Ambrosio Dalza, e Voga la galiera do Cancionero de Montecassino, relacionado com a corte aragonesa de Nápoles.

Que tudo isto sirva para a montagem deste espectáculo e sirva também de homenagem aos grandes músicos que aqui convocamos...e aos que não são nomeados, porque não cabem na Barca.


Et lux perpetua luceat eis

Alicia Lázaro

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